quarta-feira, 15 de abril de 2009
Depois
Se eu soubesse, quantos mais? Quanto tempo teria deixado o meu lábio encostado na sua pele, se demorando em dizer qualquer coisa? Se eu soubesse, quanto carinho. Teria me perdido sem pressa nenhuma a noite inteira no seu olhar. Teria dito a verdade, mesmo que sem palavras, aberto as mãos. Estaria entregue, inteira, vivendo demasiadamente o agora, sem medo do meu amanhecer. Melhor mesmo é viver. Estou pelo ar, a uma hora dessas, passando pelo lugar onde estivemos – ainda há risos lá. Parei para ver nossa história, porque quando o tempo passa, quão nosso ele fica. Perde a pressa de ir embora, de nos levar. Amei os segundos, lamentei o relógio ao contrário. Imprimi você em minha alma, só para ter certeza que, de uma forma ou de outra, o agora não ia passar.
Sem crachá
Nenhum tinha convite. Não faziam questão alguma de se apresentar. Vinham do bloco do branco. Só tinham a cara, mas pouquíssima explicação. Ninguém sabia muito o que fazer com eles, deixaram que adentrassem o salão. Que comessem o que quisessem e olhassem, no fundo do olho, do primeiro que passasse – azar o dele. A graça não era saber de onde vinham, mas ver do que eram capazes. Ver seu excesso de coragem, sua audácia em revirar tudo, falando alto, criando caso. Quem iria lhes dizer que não podiam? Se tão pouco tinham nome, muito menos boa educação. Enquanto eles estiveram, ninguém mais fez nada. Foi como ser observador na própria festa, salvo um ou outro copo de whisky. A eles, tão donos de si e tão fora da lei, apelidei de sentimentos.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A comida mal teve tempo de passar. A vez era mesmo dos pensamentos, descendo embolados ladeira abaixo. Achando que eram os donos da casa, pediram o controle da televisão (e de quebra de todo o resto do sistema). Mal pude ter tempo de reivindicar. Quando vi já queriam meu dia, minha vontade, meus preciosos segundos de paz embaixo do chuveiro. Hóspedes mais insolentes. Eu atrás do silêncio e eles com a sinfonia de idéias. Me mudei. Troquei de casa por um tempo, escondi o endereço. De vez em quando é preciso tirar férias de mim. Se algum deles bater na sua porta, com sorriso na cara, por favor não comente nada. E se gentilmente abrir, lembre: eles podem não mais querer sair.
Preso
Um alfinete alavancado na alma. Um toco bem no meio da garganta. Era minha sensação todo o tempo, num ata-nem-desata. Vontade de parar tudo e descer. Parece que de um dia para o outro você começa a viver errado, por mais intransitivo que seja o verbo. Dá uma agonia de alma, uma espinha no coração (Só que tossindo já vi que não sai). Vou andando meio invocada, chutando lata nos pensamentos. Naquela parada em que você não é sim, nem não. Nada fala do lado de fora, nada explica do lado de dentro. Noite. Aqui também.
Caros Leitores,
Perdoem uma eventual falta de constância, uma briga com o sisudo calendário (nunca fui mesmo muito boa em rotinas). Perdoem a indelicadeza de não lhes trazer toda segunda-terça-quarta-tod0-nome-de-feira um texto novinho, com cara de gente, tão cheio de tanto pra dizer. É que para sentir, não pode haver pressa. Não há lugar. Assim como não se adianta a chegada dos amores, nem se anoitece ao meio-dia, nem se antecipa a saída de um rebento, nem se pede ao outono que acabe logo, nem se socorre alguém são, nem se manda em um batimento cardíaco, nem se estica as pernas de um menino, nem se adivinha as sortes ou infortúnios de um tempo, não há como se viver um texto antes da hora. Porque a matéria do texto é a própria vida. É disso que ele se alimenta, e aceita, convalescido, o seu ritmo. O texto tem sua própria natureza e desabrocha no seu dia, quando já guardou chuvas demais. Resta a nós a paciência que a vida nos pede, quando andamos em linhas, quando escrevemos o destino e nem percebemos. Pra quem vive de alma aberta, não há tempo. Pra quem nasce texto, também não.
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