domingo, 19 de abril de 2009

A escrita não teve em mim um nascimento (se teve, desconheço). Creio que achou de se agarrar em minhas entranhas, de voluntariamente se misturar em minhas sedas, e de tão apaixonada, sem causa ou razão, pela minha pessoa, se tornou um emaranhado de mim mesma, e me acompanha em toda soma de emoções, em todo soluço de vida.
Talvez as noites chuvosas sejam para isso. Para abrir a janela de dentro, ver se há mais paz ou tristeza. Se há alguma mágoa, a poeira de alma. É uma emboscada da natureza, uma pausa para se refazer. Um remédio pra quem desconhece o próprio espelho, as mudanças do seu cheiro. É um favor do tempo para que se possa criar coragem de viver consigo mesmo. Não quer dizer com isso que o silêncio cure de imediato ou que a chuva lave a dor que se apresenta. Mas o papel de tanto escuro é clarear. A função de tanta gota é transbordar. Alguma coisa aí, dentro de nós. Quem escuta a chuva, com resignação, aprende a ouvir o próprio canto. Tateia a paz com a ponta dos dedos, descobre a forma que tem. Fecha os olhos com calma e reúne o corpo inteiro, num abraço que aquece. E aproveita, em céu tão nublado e horizonte tão turvo, para enxergar com singular clareza como anda o seu caminho.
A arte de viver está no seio.
Deixe que corra
sem lares, sem modos,
sem freios.
Há que se amar o amor
no ontem e no hoje

e em cada instante.
Porque o amor é o mesmo.
O que muda
é o semblante.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Filho já nasce gente. Por mais difícil que seja acreditar. Persistente, preocupado, vezes silencioso por natureza, calmo sem remédio, como se já conhecesse a vida, mesmo que tenha acabado de chegar. Mal olha você nos olhos e já emite uma opinião, estalada e certeira, derrubando por terra a sua ilusão de poder escolher o mundo para ele. Filho nasce com sua sabedoria, seu mecanismo original e indecifrável de lidar com o mundo, atravessando, sobrevivendo, acalentando com a ponta dos pés ou transformando. Ao passo que se ensina, se aprende tanto. De onde surgem o magma dos filhos? Quem os fez como são, com sua graça, sua poesia escapando entre as janelas dos dentes? Tanto de gente em tão pouco corpo. Tanta vida em tão delicadas expressões. Tanto amor em tão pequenos olhos. E de onde nascem as mães? Filho já nasce gente, se percebe, mas mãe não nasce mãe. De onde tiram o sim, eterno e teimoso, que enfrenta o peito robusto dos anos, tão forte quanto o próprio amor? De onde inventaram essa mania de estar sempre presente, uma fidelidade voluntária, um compromisso que as faz renunciar, muitas vezes, a quem são. O que as prende? Com que tanta delicadeza passam a vida, voltando os olhos para nós, com a cabeça inclinada em nossa direção, ainda que frágeis? Amor que não se explica, mas que se dilata na alma, ocupando um espaço sem tamanho. Que marca o tempo, que se faz presente, que se faz tão presente, mesmo que ausente – é só fechar os olhos.



Para Minha Mãe, Meu Amor. E para minha Vó Clélia, que emprestou tanta ternura para compor minha alma e que me deixou uma grande saudade.