Cismo com meu celular. Somente porque ele tem vontade própria. Ele podia ser um mero respeitador de outras vontades, da vontade de quem não manda na vontade e quer falar, na vontade de quem espera outra vontade para finalmente ouvir. Mas não. Ele quer ser ele. E eu não gosto quando nos momentos em que mais preciso, de uma emergência que podia ser policial, mas é delicadamente doméstica, ele simplesmente não funciona para me convencer a usar a paciência. Nem quando eu estou precisando encontrar minhas respostas, em uma angústia desmedida, e ele está fora da área pela simples cumplicidade de me deixar só. Eu preferia que ele não se metesse. Porque hoje, por exemplo, eu estou com essa falta, com essa saudade enorme de alguém que não sei quem é. Chego até a chorar muda, caminhando pela casa, porque não se sabe nem por quem sinto tanto. E não dá para se despedir, nem para pedir pra voltar e dá um medo de perder. Estou assim desde de manhã, um dia todo avesso, como se eu tivesse vestido uma roupa esquisita, desconfortável. Horas me apertando o peito, horas a cabeça. E justo agora nessa falta de ninguém, ele não liga e fica como eu: “procurando”. Não me deixa falar com qualquer um e me obriga a dissipar o amor pelo canal da intuição, da lembrança, do afeto que vem tão junto da memória. Eu queria poder dizer isso a alguém, contar do meu doído, mas não posso, porque sua personalidade também é forte demais. Seguimos em silêncio, eu e ele. Eu com um pouco mais de vantagem, porque tenho as linhas e com elas também escorro, escapo. Mas ele fica ali na ponta, irredutível, frisando essa ausência que pode até ser de mim.
Bem queria que ele fosse só um celular.
domingo, 3 de maio de 2009
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Pré-cirurgia - carta a ela.
Ah, amiga, não se assuste. Estamos sempre nos despedindo, nos deixando de alguma forma. E sim, claro, às vezes largamos os quilos pelo caminho. De preocupação, de maus vividos dias. Quantas vezes, amiga, secamos, finalmente, de tantos costumes que nos pesavam, de tantos medos na borda da alma. E nos damos a feliz oportunidade de nos refazer. De experimentar a roupa folgada da liberdade, da permissão para simplesmente ser. Vai, amiga, porque é natural. Aqui fora nossa cirurgia nem sequer tem anestesia, vai sendo arrebatada pelos dias. Vai, moça, para nascer outra, para viver outra. Mostra para o mundo que você também aprendeu a deixar de ser você. Porque quer ser ainda mais. (Veja que para ser alguém verdadeiro é preciso, antes de tudo, não estar certo de quem se é. ) E na volta me ensina, amiga, com seu pouco peso e com sua cara nova, que para mudar é preciso muito de coragem e bem pouco de apego.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Até que eu descobri do que eu estava precisando urgentemente: do dia. Eu precisava do dia ali, no meio da noite. Do azul escancarado do céu naquela hora só minha, de madrugada, para vagar pela cidade deserta e fazer a vida a meu modo. Pouco me importava a companhia, eu queria gastar minhas vontades e estava disposta a construir a cidade sozinha, já que o céu não me acompanhava. Não se abria. Eram 2 horas da manhã e eu queria viver. Queria amanhecer pra mim. Minha psicóloga diria que eu estou querendo mandar até nas horas. Que seja. Estou é feliz de descobrir o que tanto procurava depois de beber o quarto copo de água, na escuridão da cozinha, e simplesmente continuar com sede.
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