segunda-feira, 11 de maio de 2009

Eu sei, meu bem
Que seu amor é merecido
Muito mais merecido
Que qualquer outro apresentado
Mas o fato é
Que o amor nunca é merecido.
É dado.

Um dia todo bom

Ainda estamos lá, ouvindo a música por acaso certa, embaladas em almofadas e pedaços de conversas. Ainda estamos ouvindo alto, bem alto, o ritmo do dia, caminhando conforme a melodia, apostando em risos e em menos cabelos. Estamos deliberadamente, inescrupulosamente acreditando que tudo vai dar certo, e o que não estiver certo, a gente mesmo endireita. Estamos brindando na pista, na vida, um dia de chuva com jeito de sol, um riso teimoso, uma semana inteira cabendo em uma tarde toda ela, toda alheia. Acreditamos no começo da noite, na noite que se perde no meio, no fim que nem se conhece, que parece um de nós, imaginando como vai ser. Gargalhadas e tropeços e pedidos de mais chuva – tem buzinas no endereço. E eu sei que não é da nossa natureza, que a gente gosta mesmo é de inventar, é de criar. Mas o que eu quero mesmo hoje é muito mais de ontem.


(Um dia todo bom. E ganha a palavra dia, neste dia, uma extensão muito maior e muito mais infinda que um dia)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O porquê das rosas.


Se você perguntar a uma rosa se gostaria de ter nascido cacto, é bem possível que responda que sim. Porque lhe custa muito ter os espinhos apenas no talo e ter tanta fragilidade à mostra. É por isso que as rosas levam tantos dias para se abrir. É quase um parto, uma despedida de sua doçura, um convencimento de si mesmas, uma fé arriscada, uma superação, um lamento se revelar e estar para sempre à mercê do mundo. Ninguém quer a sina de ter tanta delicadeza exposta. Assim são algumas pessoas, pessoas-rosa. Armam-se de tal forma, como se cravando os dentes, pudessem esconder o orvalho no canto dos olhos. Quem não as vê de perto ou não tem coragem de desafiar suas pontas, não descobre a beleza esmiuçada de seus traços e o desejo ingênuo que carregam de ver o mundo por inteiro protegido. Para quem é rosa, a vida chega a doer mais. Porque não são preparadas para ver a fragilidade humana, a fraqueza do mundo, mal são capazes de lidar com a própria. O vacilar do mundo lhe cai as pétalas. E chora ser rosa.

Fechada é um não para a vida. É uma noite escondida no vermelho escurecido de seus lados. É uma privação do céu ao seu perfume. Mas quando decide não mais fingir a rosa que é, tudo acontece. Quando assume para si mesma a própria natureza, estende sobre a vida uma beleza aguda, com o seu desengonçado abrir de braços, desdobrar de sonhos, em uma ignorância bruta de rosa, mas com uma verdade, uma sinceridade tão grande, que faz o mundo também ser quem é, e perder o medo de uma simples rosa.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Filiações do amor

Vez em quando passo a mão na minha barriga como se já houvesse uma criança ali dentro, só que aguardando a sua hora de ser. Amo-a já, já é minha, tão feita de meu ventre, tão confiante em minha humanidade. Temos um pacto de doação, de amor (com ou sem essa vírgula no meio). De mim para ela, dela para mim desde agora. Ambas esperamos apenas o momento em que as circunstâncias da vida possam existir, ao contrário dela que já existe, cumprindo sua obrigação na sabedoria do tempo. Sinto que ela fica tão ocupada quanto eu, em suas ocupações de não-nascida, vezes observadora, consciente, intuitiva e ainda mais certa do destino, já que é o próprio resultado dele. Eu aguardo, amando sua doçura. Sua presença silenciosa em minha certeza. Por um instante, cheguei a me perguntar se estava grávida de verdade. Se não sou eu que estou nascendo de mim.

Da inexperiência

Se felicidade fosse um presente, fico pensando se eu não devolveria de imediato. Assim, como se ardesse feito gelo seco ou mexesse em minha mão, como um bicho vivo. Fico me perguntando se não a lançaria do meu colo em um impulso. Sim, porque a todos se ensina desde a infância a buscar a tal felicidade, mas ninguém lhe diz como lidar com ela quando encontrar. Não, não é esta, a alegria, que é de anos minha grande amiga. Essa dorme em minha casa. Mas aquela que é calma, que é plena, fruto da realização, é justa e até merecida. Inofensivamente assustadora. É incrível a pouca habilidade de lidar com essa, nunca vi nada mais desajeitado. Ás vezes, basta algumas horas com ela para que eu sinta falta, acredite, de minhas preocupações, tornando a resgatá-las ou a inventar uma. Felicidade justa assusta, não estamos acostumados com essa coisa de direito. Eu não sei bem quem foi que disse que não estamos prontos para o que nós mesmos construirmos. Que é difícil sustentar. Eu não sei de onde veio, mas tão pouco importa, porque agora tenho os dedos abertos, firmes e quentes. A próxima vez que a felicidade se chegar, agarro-a de um golpe só, como a um gato preto de rua esperniando e arranhando. (Tamanha é a minha inexperiência que só agora lembrei que felicidade é moça educada. É só convidar gentilmente que ela entre e permitir que ela fique, pelo tempo que quiser, hospedada aí dentro.).