domingo, 17 de maio de 2009
Paris para ela
Paris é para os que amam. Ou para os que amam o amor. Ou para os que amam o cheiro do amor que está para nascer, impregnando postes de rococó cobertos de orvalho. Paris é para os sonhos que não anoitecem mas se apaixonam pela noite. São para os infantis. Os despeitados. Os limpos. Os adores de borra de café. Existe uma Paris em cada língua de amantes, em cada hálito de despertar, em cada pedra de açúcar ou bula para risos. Paris mora sozinha para ser o encanto dos amados. Dança, escuta o som entristecidos dos violinos, clareia sobre a lua imensa e amanhece. Entretanto, tão solitária é a terra de tantos pares. Porque nunca haverá, e ela sabe, outra igual.
Doação
E então, por um instante, tudo se clareou e eu compreendi, com uma simplicidade bonita. A única e melhor coisa que eu poderia doar era essa: ser tudo que sou. Ser tanto, de uma forma tão plena e tão destemida, tão aberta e tão desabrochada, que chegue ao ponto de poder me ser para os outros.
Contra a Solidão
Contra solidão, o remédio do seu próprio veneno: mais horas consigo mesmo.
Lida-se com a solidão estando intensamente com você, depuradamente com você, até que não haja espaço para mais nada, nem mesmo para sentir o sentimento de falta. Intermináveis momentos de auto-amor, de brio com a própria cara, o zelo merecido. Honras ao seu nome, doçuras ao senhor da certidão. Privilégios simples: se dar de presente letras que falam aos ouvidos da alma, se doar para um silêncio tão rico da noite, deitar os olhos com uma música que sozinha dança em você. Fazer um mínimo ato, de natureza de olhos, mãos, nariz ou peito, que tenha a virtude de ser tão próprio seu, tão legítimo de sua vinda, que lhe faça repousar da vida em qualquer comunzisse de tempo. Tudo para que você possa, enfim, estender os braços se alinhando com a Terra, e com um sorriso tão reservado de satisfação, agradecer por pertencer àquele momento e aquele momento pertencer tão inteiro a você.
Simples, feliz e grato, estando calmo ou de sutil alegria, você perde então a noção das horas e do dia, e vive para seu próprio deleite. E nesse gesto de carinho genuíno com você somente, vamos enchendo o peito de estranha felicidade e, docemente, ferindo as pernas da solidão, até que ela mesma tenha o que temer.
Lida-se com a solidão estando intensamente com você, depuradamente com você, até que não haja espaço para mais nada, nem mesmo para sentir o sentimento de falta. Intermináveis momentos de auto-amor, de brio com a própria cara, o zelo merecido. Honras ao seu nome, doçuras ao senhor da certidão. Privilégios simples: se dar de presente letras que falam aos ouvidos da alma, se doar para um silêncio tão rico da noite, deitar os olhos com uma música que sozinha dança em você. Fazer um mínimo ato, de natureza de olhos, mãos, nariz ou peito, que tenha a virtude de ser tão próprio seu, tão legítimo de sua vinda, que lhe faça repousar da vida em qualquer comunzisse de tempo. Tudo para que você possa, enfim, estender os braços se alinhando com a Terra, e com um sorriso tão reservado de satisfação, agradecer por pertencer àquele momento e aquele momento pertencer tão inteiro a você.
Simples, feliz e grato, estando calmo ou de sutil alegria, você perde então a noção das horas e do dia, e vive para seu próprio deleite. E nesse gesto de carinho genuíno com você somente, vamos enchendo o peito de estranha felicidade e, docemente, ferindo as pernas da solidão, até que ela mesma tenha o que temer.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Mensageiros do tempo

Existe um povo que vive. E vive simplesmente. Mas existe um povo que avisa. Que é luz de beira de estrada, é telegrama do destino, balcão de informação da vida. Tem gente que está no lugar certo, na hora certa, para lhe confirmar o caminho, lhe dar os suprimentos de viagem que enchem a barriga d´alma e aquecem as inquietações, feito uma manta encomendada. Gente estratégica. A palavra dessas pessoas é farol em noite de neblina. Chegam simplesmente sem avisar e estão lá, não por acaso, mas já esperando por você. O que você recebe delas não é nada menor do que a voz do universo. A resposta às suas indagações, o bilhete da passagem que vai te deixar na próxima estação, nesses trilhos horas tão duros, horas tão difíceis do caminho do crescimento. A essas vozes mansas, que atenuam corações e olhos dilatados, que são a notícia boa que viaja, mensageiros do tempo tão bem disfarçados pela despretensão, meu mais sincero agradecimento. Vocês são o marco de passagem em minhas páginas. O que encontrei nos olhos de vocês é luz para levar com os meus. Sigo com a certeza de que o encontro leva apenas o tempo necessário – a caminhada com os próprios pés prossegue sozinha – mas aquilo que recebi permanece agarrado a mim, por milhas infindáveis e tempos que me esperam, em um destino sem nome anunciado, mas aguardando com ansiedade o meu.
Dedico esse texto à Rose e a todos os amigos que me agraciaram com o mesmo papel.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
A mulher que vive em mim.
Pouco me importa o que você pensa de minha aparência. Porque sou segura enquanto mulher. Pouco me importa o seu porquê entre os fios do meu cabelo, seu ar esnobe, seu desdenho. Não quero saber o que seus olhos têm a me dizer – porque palavra de olhos seus é rasa, é tão pouca de morrer entre a íris e a claridade, entre uma piscada e outra. Você só sabe ver o que está visto, até sua língua dança sobre o tédio. Não me importa mais o que você pensa sobre mim, sobre o desarrumado do meu cabelo, sobre a virtude da minha pele, meus passos, aquilo que exala quando existo sem fim. Não me importa porque sei a mulher que sou. E entenda: o meu conceito de mulher é que é grande, o meu conceito tão diferente do seu. Ser mulher para mim é saber imensamente. Coisa que seus olhos, seus dentes, seus ombros estão muito longe de alcançar. Sou a mulher que sinto. Sou a união de todas, transpiro em mim todos os punhados de luz. Meu cerne está firme, não se ampara no que você diz, nem no que vem dos dedos, seus medos, seu verbos sem freio. Sou o que vem do meu ventre e o infinito em mim não me escapa. Minha beleza por vezes é mansa, mas aquilo de que sou feita tem força incomum. Se tenho que confiar em algum olhar, confio no meu, que vê além da claridade.
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