quinta-feira, 21 de maio de 2009

Teimar - há que se praticar

A teimosia movimenta a vida. É um levante contra as águas do destino, uma fronte diante de tudo que é certo e estabelecido e organizado. A teimosia é uma arte, meus amigos. É a vitela da criação, um segredo da própria vida – para que você pense que ela está indo contra ela mesma, no entanto está rindo alto e se refazendo. Não tem liberdade maior que largar os braços, ou suspendê-los de tanta ironia. Não vou fazer – é o que dizemos todos os dias, é o que noite diz quando lhe pedem pra acender agora, é o que as horas respondem indo ao contrário da memória, é o que a gota de choro pensa quando insiste em não cair, é o que vento responde à sua tentativa de se arrumar, é o que as formigas falam contra o peso dos homens. Sem teimosia nem terras, nem explosão, nem pêlos. É se negando que se faz o novo, que se abre a boca da vida para fazer ela contar todas as suas intenções, a custa de muita risada de nós. E nunca se sabe aonde a teimosia vai te levar afinal, porque a primeira pessoa que ela contraria é a ela mesma, inventando um novo destino. É por isso que são uma da manhã e eu insisto contra a pálpebra, contra o tempo, contra o cansaço, contra o trabalho no outro dia porque meu prazer é teimar, é futucar a novidade com vara curta e irritar com mania de sim. Sou eu mesma que sofro com o cansaço, é meu, mas rio satisfeita, vendo o mundo ainda se surpreender, achando que podia usar o verbo agendar para mim.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Comunicado

De forma, prezados senhores, que eis a única coisa solene, justa e respeitosa que posso lhes aconselhar:
Que a sua forma de pensar não se torne uma fôrma de pensar.
E que o mesmo aconteça com sua forma de sentir.
Tenho dito.


(E disse isso em assembléia, usando unicamente sapatos lustrados)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Feliz Ano Novo

Precisamos ter uma conversa, e esteja sabido que é urgente, daquelas entre nós que desafogam a alma e desatam os nós. Mas acontece que é noite, e não se dorme direito depois de uma conversa dessas. E amanheceremos. Então que no outro dia houve a lástima de termos perdido alguém. E esquecemos muito bem esquecido por um dia, praticamente inteiro, porque há tanto que se valorizar a vida em si que já não importa conversas quaisquer. E então que era quarta, e deu uma grande preguiça de conversar, melhor comer frituras, todos achamos. E chegou o sábado, e ninguém interrompe um dia de alegrias desses, de tarefas voluntárias e imensos afazeres inúteis de grande prazer, como balançar os próprios pés, para isso. E aconteceu do mês passar e só havia mesmo que se preocupar com as contas, contas do próprio mês. E então que eu casei, e não se fala em conversas dessas em brindes de bodas e debaixo de uma chuva torrencial de grãos de arroz, não cabe. Mas era necessário conversar, era sim, porque ninguém gostaria de entrar com isso no ano novo, antes livrar-se no velho mesmo. Mas acontece que só restam dois segundos. Dois. Um. Feliz ano novo. É tudo que foi dito.

SONO

De maneira que acho demasiadamente injusto pequenas pálpebras carregarem tanto sono. E pessoas tão pouquinhas, levarem sonos tão obesos nas costas. Fico pensando o que faz o mundo as obrigar a caminhar assim, com uma sacolinha de volume tão menor que o próprio sono, sendo obrigadas a arrastá-lo a punho pelo trabalho, pelas ruas e avenidas, pelas faixas de pedestre, pelas passarelas, ônibus às oito e meia, ventos de praia e almoços com mosca. Sim, é uma desumanidade, visto que são tão pequenas, magras pessoas, e levam todo o sono que lhe és imposto nas costas, até o sono do próprio patrão, já que mais um café, outra reunião, um novo telefonema e cara de ameaça nos mostram que não há nunca neles, em tempo algum, uma vontade ainda infantil de dormir. Antes, a distribuem de maneira igualitária entre seus funcionários, que, ociosos, a carregam tristemente, sem receber sequer um ajuste salarial por isso. Fica aqui o meu protesto manso, porque mesmo que fosse alto, não acordaria tamanha dormência, só mesmo um grito de sábado ou feriado instituído de repente numa quarta-feira. Só os aviso para que não aconteça, de em uma semana qualquer, os funcionários também se revoltarem e largaram sobre as mesas de seus patrões dezenas de toneladas de sono, de forma que a empresa boceje e que o patrão não consiga carimbar o aviso prévio, nem mexer sequer o mindinho de tanta preguiça.

O mundo que é seu.

E aconteceu que ela me falou que podia mudar o mundo. Como assim mudar o mundo. Mudar o mundo assim ter o mundo que é seu. O que você quer do jeito que você quer. Veja que essa casa nem sequer precisa estar aí, veja que essas ruas podem ter a abertura da boca de um lobo e que poderia ter massinha de modelar de tons bem infantis nos rejuntes dos prédios. E que se necessário fosse, eu poderia arrancar o nariz, duplicar uma das pernas, estender os lábios assim, na direção do sol, agudos e apontados. O que você quiser, você. Perguntou porque eu não estava fazendo isso a mais tempo. Olhei com os olhos. Parei por um instante concentrada em meia dúzias de folhas verdes tão riscadas sobre mim. Voltei e então vi que ela estava cercada por centenas de cabritos, dezenas de cabritos branquinhos, feito flocos de algodão. Tão feliz em ser um neguinho de pastoreio, ali, naquela avenida.