quarta-feira, 27 de maio de 2009

e em um instante, sua pele clara se inflamou, seus olhos quase saltaram, o suor frio lhe desceu pela orelha, um estrondo arrebatou-lhe o peito e em um esforço imenso, eu diria sobre-humano, a olhou.

Estranha natureza.

Um menino tão tímido de tão escandalosas saudades.

Imprevistos

Veja meu bem, às vezes o mundo está do avesso, às vezes esquecemos de pular nas costas do nosso próprio trem, deixando o vento bater forte no rosto, furando o destino com o nariz e recebendo mais vida em porções fartas de ar gelado. Eu sei que às vezes dói um doído do que a gente queria que tivesse acontecido, um desencontrado assim só nosso. Mas não se preocupe, porque afinal de contas temos tanto de nós. Temos essa coisa toda farta de um estar tão dentro do outro, de eu estar mergulhada em vãos de linhas, tão escorregando em curvas de letras, e você tão me invadindo com verdades melódicas, espaços e mãos, desejos e tempos. Há nesse branco todo do universo um ao outro para a gente rir de gargalhada nossa, pra gente falar de qualquer coisa pouca, porque nossa paixão é gratuita e tão irremediável. Veja bem como eu me derreto te olhando, como tenho vontade intrínseca de você em qualquer hora do dia, porque quando fomos feitos, nem mesmo o dia havia. Essa é só mais uma declaração de estampado alto, para você saber do meu amor por você e também por mim, que consola enfim essas coisas todas da vida, fazendo um intervalo tão só nosso em que dá prazer de existir. Te amo sem pontos em mim.

O calendário nos conhece.



E de repente, vejo as luzes todas do carrossel e os risos circulares em volta de nós, tão cheios de bocas, de música. Eu pensei que nós éramos uma pausa no dia. Sim, porque quando nós somos, os problemas com o saldo já não são, os dias cinzas já não são, o partido no peito já não é, qualquer coisa incomodando as idéias já não.


Mas nós não somos a pausa no dia. Nós somos o Dia. O Dia Esperado. Aquele que acontece em um ano místico, que reúne a força dos planetas, um encontro milenar entre o sol e a lua no mesmo traço. Somos o dia que precisa de sorte para acontecer. Somos ele. A benção do calendário. A flor das estações. A ventura dos tempos, a promessa das mães. A alegria em olhos de criança, apertados na noite, de tanto sonhar.


Nosso encontro anuncia vida. Entre tantas estações, brotamos tanto. O que sentimos ilumina, acolhe corações, nos faz ir ao chão, de tanta graça. Juntas somos tudo que precisamos. Somos um abraço silencioso e tão impregnado de amor, que continua acontecendo mesmo braços distantes, mesmo que não seja o dia único, mesmo que não haja encontro de luas, mesmo que não seja o ano místico, tão valente e vibrante em dias simplesmente comuns.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Amantes

Agora vamos rir dessa ironia. E desse prejuízo. Somos presas do nosso próprio artifício, feridos de um mesmo veneno. Sabíamos muito bem do amor mais difícil, ao qual sucumbimos: aquele que não podemos. O que simplesmente criamos. Não me estranha que seja melhor do que os outros: o que poderia ser mais perfeito senão o que leva a sua autoria? Ao contrário de tantos, ele não se alimenta de vida, da concretude dos dias, haja fartura ou tapas no osso. Cresce sem rumos e sem freios a cargo de nossa querência, da imaginação. Somos bem assim: eu te existindo em vontades urgentes e você me abraçando em silenciosos pensamentos, por convenientes vezes, quando quero me aquecer. Alguém nos socorra com crimes de fato. A arte do impossível está nos tornando perfeitos, como eu nunca saberei, nem você alcançará. Antes, derrubássemos todas as barreiras, infringíssemos a lei de forma brutal, ardêssemos em beijos, e assim, tão impunes e imperdoáveis, nos tornássemos menos amantes do que temos sido, apenas com o olhar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Em comunhão

Eu adoro ver meus lábios ardendo, por uma gota de pimenta, enquanto arde ao mesmo tempo o sol no clarão do céu. Eu adoro sentir sua cor inflamando, seus leves traços como projetados, seu jeito alarmado e sinuoso, se enchendo de uma coisa que parece vida intensa. Ardendo de uma força estúpida e só para mim, mas doce, quem sabe, para o que lhe encosta. Os sorrisos escapam, inertes à qualquer quentura ou queimadura. Pouco se movimentam os donos, concentrados apenas em arder e pousar. Quando meus lábios estão assim, deixam de ser boca. E mora, na minha face, um convite cor vermelha.