Tá bom, eu desisto. ( E entro num impasse: é possível desistir de desistir?). Acho que na verdade estou caindo no mesmo erro, mentindo-me, arranhando os bicos. Estou cansada de pequenezas, de morar em esquinas, nos cantos da mesa. Estou cansada de tantos vidros, antes tão perfeitos, redoma de berço, proteção da vida. Cansei. Prefiro então os cacos, os estilhaços. Quero de fato sair, quero provar o mundo, nadar os dias ou engoli-los a fio. Não tenho mais medo porque meu maior medo é continuar aqui, por entre. Posso abrir um buraco simétrico para o ar entrar, mas não. Quero eu invadir o ar, me jogar por inteira para que ele sustente o peso de mim. Ou simplesmente me deixe flutuar.
Quero ser: entregue, jogada, balanço, de peito vigente, de céu estalado, cabelo bandido. Não sei nem por onde começar. Mas cansa ser, quando ser é deixar de ser, é emudecer.
Até quando se pode fingir viver?
terça-feira, 2 de junho de 2009
Empurrando as paredes
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Espera...

Ás vezes eu me pergunto: é mesmo o mesmo ano? Estamos tão bem, eu mal pude, e de repente, assim. Veja, é o resultado dos dias que fizemos, cada dia. O minúsculo mostrando para nós que tamanho de fato ele tem, que importância. É a soma de todas as frases não ditas para mim. São os espaços em brancos todos juntos, que você insiste em achar que eu deixei, formando um só muro pálido. Veja como nossa corda balança, como tudo parece desalinhado. Entretanto é sol, e esperamos juntos que alguma coisa seque. Que um pouco de vento quem sabe varra, com mais passar de dias, com inaugurações. Me acordo, em um descobrimento repentino, para um amor que tanto existe em silenciosas intenções de melhora.
(Deixo esse texto sem desfecho, posto que ele é somente vida, vida é o que ele é, e deseja acontecer assim, em descontínuo seguimento.)
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Imprevistos
O calendário nos conhece.
E de repente, vejo as luzes todas do carrossel e os risos circulares em volta de nós, tão cheios de bocas, de música. Eu pensei que nós éramos uma pausa no dia. Sim, porque quando nós somos, os problemas com o saldo já não são, os dias cinzas já não são, o partido no peito já não é, qualquer coisa incomodando as idéias já não.
Mas nós não somos a pausa no dia. Nós somos o Dia. O Dia Esperado. Aquele que acontece em um ano místico, que reúne a força dos planetas, um encontro milenar entre o sol e a lua no mesmo traço. Somos o dia que precisa de sorte para acontecer. Somos ele. A benção do calendário. A flor das estações. A ventura dos tempos, a promessa das mães. A alegria em olhos de criança, apertados na noite, de tanto sonhar.
Nosso encontro anuncia vida. Entre tantas estações, brotamos tanto. O que sentimos ilumina, acolhe corações, nos faz ir ao chão, de tanta graça. Juntas somos tudo que precisamos. Somos um abraço silencioso e tão impregnado de amor, que continua acontecendo mesmo braços distantes, mesmo que não seja o dia único, mesmo que não haja encontro de luas, mesmo que não seja o ano místico, tão valente e vibrante em dias simplesmente comuns.