terça-feira, 21 de julho de 2009

Céu-Nascimento



Às vezes quando eu olho assim a terra arredondada, e aquele céu azul imenso se curvando sobre nós, eu sinto o mundo simplesmente grávido. E a nossa alma exultando, como se quisesse, de tanta imensidão, empurrar as finas paredes do céu até se romperem. Sinto, em uma verdade, como a se a gente ainda fosse nascer.


* Pouco depois que eu escrevi esse texto, um amigo meu bateu essa foto, do mesmo céu, e me perguntou: Lu, você vê uma pessoa levantando um bebê nessa nuvem?
Apelidamos a foto, e o momento, de céu-nascimento.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

ATOS

Mas no meu não, cada dia é uma nova cena, aliás, é uma nova peça em cartaz. Nunca sei que máscara vai acordar agarrada em minha pele, se há de arder em mim o choro ou o riso. Se há ódio, como hoje, estremecido, de tanto amor. Senhores, eu me penduro nas cortinas, eu rasgo cada pedaço de seu manto aveludado para fazer de cobertor! Seja como for, estou no palco. Estou cuspindo meus medos, enfrentando meus dragões. Não posso anunciar meu espetáculo de pé, porque ele é feito na agitação dos segundos, na agudez dessa hora, nada se pode prever. Eu não posso conter a mania de letras e a transformação em atos, sou somente tomada. Sou apenas o mesmo diretor que entra em cena, o mesmo ator que chora na platéia. Há um invento um tanto imenso para tudo isso. Querer dar forma a cada palmo de ferida, a cada gota de saliva sentida. Mas isto é a minha vida, que também se arruma para ser, e se perde e ganha em cima de qualquer tabuête. Se deseja explodir, que seja. É porque nunca coube em si.
E aquela alegria me vinha soluço. Sobressalto no meio do texto, assalto de minhas funções. Pequenas convulsões de riso, até estalar na face. Simplesmente vinha, toda menina, desejosa de sair, pular pro mundo. Difícil conter, explicar que naquele momento eu era um texto importante, sério. E lá vinha ela com estabanada felicidade em momentos comuns. Parecia um escorrega da alma: eu a empurrava pra dentro, e ela voltava gritando, cheia de impulso. Aprendi a gostar do seu jeito, a rir dessas loucuras, adorável companhia. A essa cócega repentina, em horas desavisadas, apelidei gentilmente de sintoma de você.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cumplicidade

Olhei. O cursor do teclado piscava e piscava, em um ritmo contínuo e marcado, contínuo e marcado, como um coração pulsando no meio de um peito branco e pálido do papel. Parecia a batida das palavras clamando por um pouco mais de vida para contar. O fôlego ofegante de um documento de texto. Eu o olhava. Ele a mim. Como que esperando, esperando a próxima letra. E de próximo eu nada sabia, nem dos capítulos, nem do desenrolar da história. Ambos pulsávamos. Ambos batíamos. Naquele ritmo ansioso e atento da espera. Ele fitava o meu branco. Eu olhava o vazio dele, sem medo. Nos perguntávamos a mesma coisa: se haveria palavra certa para desengasgar, se valeria querer adiantar alguma coisa. Nos aquietamos. Nos confortamos em um silêncio amparado, no aconchego que às vezes traz o recolhimento e a economia de palavras. A tela foi se escurecendo, no ritmo dela, como se quisesse também adormecer, em cumplicidade a mim e a um velho cursor. Sabíamos que por trás daquela noite digital, e debaixo dos nossos olhos, ainda havia o mesmo ritmo que persistia insistente. Mas agora eram apenas os segundos, cumprindo sua função de passar e virar a página, escrevendo a história enquanto a gente simplesmente dormia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A terra de São Jorge


Eu vi os olhos do menino cheios de cidade. Molhados de um verde manso e morno, que se deitava sobre as pedras, à borda da areia. Eu vi a luz nos olhos no menino. Que atravessava o céu e atravessaria os anos, bordando de prata uma orla sem fim, com um farol tão imponente quanto a noite. Vi a língua da cidade sobre as ruas. E como deixava tudo brilhando após sua passagem, até o coração do menino. Nesta cidade tudo tem beira, uma beira de cores perdidas entre tanta azulância e brandura, mas nada tem final. Pode-se caminhar pela margem, mas vê-se que a cidade é infinita, suas águas se estendem fartas, para que não haja dúvida de quanta riqueza foi dada a essa terra. Vi que o balanço do barco era manso, e com ele iam nossos sonhos adormecidos, hora tão meninos, hora tão futuros. Vi que o menino se enchia do amarelo dourado das comidas, do colorido de uma gente que borda alegria em cada renda, em cada prato, cada retrato. Vi que o sol não queria ir, decidido e imenso, e permanecia cravado na varanda das águas, fazendo tarde calma, fazendo ouro do mar. E o menino via o sol, e como ele, também não queria ir. Vi os caminhos de pedra, com um cheiro todo ele de história, que levantava-se rebelde quando chovia, entranhando-se nas pessoas distraídas de tanto presente. Vi a alegria do menino estar na alegria da gente. O gosto forte da cidade ardia sobre a boca, alagava os olhos, como um maço de pimenta mastigado por pura vontade, com toda força, até o fim. Era tarde, e como a noite caía, deixando somente a luz das casas formar um colar de contas sobre o mar, parei para ver. Deixei então escutar os risos, que desciam as escadas junto com o jazz, e os olhos, que se perdiam em tanta coisa para ver. Vi que, por um minuto, aqueles olhos eram também horizonte, se arrastando pelo chão, querendo levar em um só carinho pedra, frio, cores, meninas, cais. De tudo que vi, percebi que quanto mais crescia a cidade, em sua alma enlarguecida, maior se tornava o coração do menino. Este era, desde o dia que chegou, como o pórtico de ferro largo e envelhecido, aberto de tanto amor, atravessado pela gente e pela felicidade do vento.

A essa hora, para o menino, cidade era saudade.