domingo, 17 de janeiro de 2010

Toda de contas - arte de crescer

Meu deus porque estou atenta

E costuro minha alma feito

Colcha de fuxico, das que cobrem o sofá.

Vou amarrando aqui, enchendo de pontos o outro lado

Vou acertando até que a linha

Esteja pronta, esteja certa

E de tão estirada e estufada em seu vermelho

Seja o caminho macio para os meus passos

Claros

Vou costurando sem pressa, com amor

Sei do que são capazes os bordados do meu sonho

Sei da delicadeza com que arremato a minha alma

Sei do que contam as estampas

Que gentilmente escolhi

Nesse acolchoado da vida

Sou uma tecelã, minuciosamente atenta,

Que algumas horas dá um ponto fora da cruz,

Que por um segundo, fura a ponta do dedo

Mas que devolve os mesmos olhos de amor

E volta as mãos antigas para o tecido,

Como se fosse um carinho levá-lo ao pé da agulha

E vai ficando bonito o desenho

Porque tem o cruzado forte de quem já andou

Aprendendo – e se pode ver

um colorido, desembaraçadamente bonito

Que parece que muda de tom

Cada vez que avanço mais um metro.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pousado.

E eu olhava amando

Como se amar fizesse risca

E fosse contornando

Com uma gentileza despretensiosa

O tracejado do seu rosto.

E eu olhava amando

Como se amando pudesse cobrir

Em um entapetado de beijos

O que não era visível

Mas que estava amando olhar

Entre um assunto e outro.

E eu escutava amando

Como quem abraça as palavras

mesmo sem ouvir,

Como quem ouve música

De uma língua qualquer,

E se cobre com um som

por ser apenas familiar.

E eu esperava,

Apertando as minhas mãos,

Por um momento em que

O momento ficasse morno

Com uma mão pousada sobre a minha

Como uma eternidade de paz

Pousa sobre uma pessoa.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Agudos

Tem Dor que só sai num abraço

Apertado, apertado

Como se pudesse estourar a angústia

Até escorrer o fiozinho da paz.

Tem silêncio que só acaba com sim.

Tem verdade que só sai com água.

Tem criança que nunca quer ir embora,

Mesmo passado das horas no relógio de ponto.

Tem mudez que faz barulho alto no peito

E não deixa dormir de noite.

Tem saudade que só passa esfregando

Um no outro.

Tem vergonha que só passa se olhando

Tem medo que é tão forte

Que veste roupa de realidade

E a gente já não sabe quem é quem.

Tem a solidão que isola

e a que se enrosca nas pernas do outro.

O que não tem fim

é esse vazio

Que cabe tanto,

Que cabe tudo

De letrinhas calejadas de amor

A sentenças de alguma paz,

Até o assentar do dia.


*Inspirado na frase de Rodolfo Barreto " Saudade só sai esfregando um no outro"

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

GPS para assuntos do coração

Se tivesse um gps para o coração

Meu deus, pelo sim, pelo não

Ninguém se perdia mais

Quantas vezes, quantos trabucos

Quantos buracos e ruas que ninguém

sabe onde vai parar

Quantas vezes eu me pergunto

É pra seguir ou pra voltar?

Se tivesse um gps pro coração,

Quanta alegria e simplicidade

Não importava a última ligação

Nem o encontro de ontem a tarde

Valeria a voz da autoridade:

“siga reto por mais 1 metro…”

Mas em vez disso, quanta labuta…

Quanta dúvida no meio da estrada

No saculejo desengonçado da paixão

Sabemos mesmo ouvir o coração?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Verdejância

Não se sabe ao certo

Se vã ou coisa pequenina

Mania de um espreguiçar de sol

De um futucar de sorrisos

É só uma brisa mansa que passeia,

Alguém resolveu lhe explicar

Mas ela era mais que brisa

Era a sola solta do sapato

E os passos!

Muito longe das folhas quebradas

Muito depois da mancha de luz no chão

Muito mais tarde que a tarde

Era choro de sonho recém-nascido.