segunda-feira, 9 de agosto de 2010

branco banco

Aquele banquinho encostado guardava uma centena de tardes com gosto de conversas boas. Ele era inteiro branco, por isso o próprio tempo gostava de se assentar ali. E quando a gente sentava, era como se descolasse da vida e já se tornasse bem velhinho, em apenas quatorze segundos. E então para nós o gostoso se tornava ver a vida dos outros passar, com seus cachorros de mão, com suas preguiças de expediente, seus sapatos chutando vento, suas fabricações de família. E de repente a nossa própria vida passa então mansa pela calçada, acompanhada pelo nosso olhar, como um suspiro longo e grato... Uma breve pausa para o alívio de viver - que fica ainda melhor com o friozinho da tarde. É o minuto em que os sonhos param um pouco de pedir e as pernas de correr. Levantamos. Recuperamos então nossas dores nas costas, nosso dia pelo meio, nossas obrigações civis e as mãos nos bolsos. Talvez até a própria idade, uns dez passos depois. E seguimos, escrevendo a própria história, em passos um pouco mais lentos, em linhas um pouco mais longas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Verbo novo

Eu fundei um verbo novo: Terquê. E mal se caminha no mundo, o verbo começa a se conjugar sozinho. E você já vai terquê gostar. E você já vai terquê se abrir. E terquê amar a azulância das coisas. E terquê tapar os buracos. E o terquê agora, que é o mais bruto de todos. Que engraçado isso. Quem me prometeu o mundo? Quem me disse que haveria outra imensidão igual a mim? Quem não me ensinou que não existe nada no mundo igual e que tudo que existe é pura diferença. (E que há tanta beleza nisso). Agora tenhoquê. Observar, Aprender essa lingua mole que a vida fala. Aprender a falta de acordos e contratos com o outro. Aprender a não querer tanto o mesmo abraço, o mesmo riso, o mesmo encontro, o mesmo modo viveris, mesmo quando ele é tão bom. É muito Bom ter pensamentos parecidos. Mas o mundo nunca soube o que é terquê. Terquê não foi inventado pela natureza. Terquê não existe na gente, porque até a gente prefere escolher a cada dia e renegociar o que quer no pós-dia. A a gente só aceita terquê quando a causa é muito grande. Terquê fazer o exame. De resto a vida não é. Não vai. Não está feita. E nessa malemolência, esse apenas fluido do mundo, vamos nos deixando conhecer mutantes. Falantes, Inventantes de nós. Vamos conhecendo vontades. Verdades. Imprevistos que constroem. Vamos conhecendo o inaceitável, o incalculável, o susto: o outro vivendo. Com o modo dele, seus motivos alheios. Tão espacado desse verbo. A vida é desse não garantido imenso. E não nos faz maiores pedidos, mesmo que sua agenda e o seu trabalho lhe digam o contrário. Conjugue o verbo certo. A vida só pede pra ser.

Mas essas minhas linhas vão para as sinceras. A admiração discreta, entre ombros, mãos, papéis, boca torta. Porque por trás do Sim e Não altivos, que andam pela sala com os peitos inflados e um chapéu robusto, existe o parar pra assistir. Parar pra ver o outro ser, existir. A vida seria mais gostosa se a gente parasse para ver. Sentasse na frente de alguém, que já viveu um bocado, que já sabe um bocado ou que não sabe nada direito mas vive como ninguém, só para silenciar. Minha gente, a vida é um espetáculo. Inclusive a vida do outro, inteira como ela é. Ache você que não concorda. Ache você ruim o seu modo ou que é falível. Mas como um filme, que todo mundo viu, pare pra assistir. Sem apego, sem sentimento, sem ser você por um instante. Exerça o direito à curiosidade, ao novo. De algum modo, você também vai ter vontade de aplaudir. E de entrar, nem que seja um pouquinho, naquela secundagem, naquele monte de rugas na pele contando um monte de vidas em uma só. Mas quando você entrar será breve. E discreto. E transparente como um penado. Porque enfim terá descoberto o valor do respeito.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Horóscopo

A verdade é que meu horóscopo nunca vai chegar perto de adivinhar o que aconteceu ontem a noite. Nem será capaz de me dar conselho algum, visto que não toma um bom vinho comigo. Ele pode até conhecer do passar dos astros. Mas do passar das horas, das histórias costuradinhas no tempo e desamarradas no dia, entendo eu. É certo que não é muito fácil interpretar minhas estações. (Mas crescer é também isso: ter paciência com os próprios mistérios. Viver apesar do calo, apesar da dúvida, apesar do momento. )De forma que fiquem os planetas com suas conjunções e conjugações. Com seus futuros e suas explicações para o que nunca precisou de uma. E aqui, onde se pode ser mais do que um asteróide, nós vamos fazendo a vida andar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

pedido

Meu bem não desperdice

Amor feito gotejo de vela

Carinho escapulido

Tanta palavra bem feita, bem decorada

Espantada pela porta

Meu bem é cedo

Meu bem é junho

É tempo que tudo caminha

Deixe correr os zumbidos

Os pedidos no pé do ouvido

Meu bem, quem precisa saber?

O que a noite nos diz

No embaraçado dos braços

É o que tem de ser