segunda-feira, 21 de março de 2011


Do que para uns era ela

Uma menininha, um malabarismo

Entre sorrisos e pontas de pés.

Do que para outros, era chama

vivente e errante nos grandes

olhos escuros, gulosos.

Do que para outros ternura.

E para os que mais de perto,

Terremoto.

Mas era pra tantos doçura,

que deles recebia o que

enchia seu canto.

Poucos a viam em silêncio,

o que nada dizia, mas trazia dor.

Mas no que muitos viam, descansava:

Essa coisa escancarada

sem dono, nem página

inquieta, descabelada,

uma carreata de amor.

quarta-feira, 16 de março de 2011

VESTIDA DE FLORES



Acaso você nunca nasceu

com um punhado de flores acoroadas

trepadas feito jabuticabas no pé

bem agarradas no seu tronco


Por acaso você não tem os olhos manchados

de tantas cores das bromélias e girassóis

uma confusão só das tintas todas

enchendo seus dentes e dedos


Por bem nunca aconteceu na sua manhã

do sol mudar-se para sua casa

de passar perninha por perninha pela sua janela

sentar-se em sua cama para uma prosa


e sua ciranda nunca girou girou

e seu corpo nuca teve vontade de ir atrás do pedalinho do menino

e você nunca teve vontade de descer rolando a ladeira

e rolar por ela todas as suas vontades


e suas mãos nunca foram um aplaudir de pé

e seu dia ainda não foi um infinito dia?

e seu cascalho nunca foi todinho vivo

de miudezas brancas e um cheiro de mato?


pois é assim que está me acontecendo agora.


poesia saborética

Poesia saborética do cotidiano

Anote aí sem preconceito algum

3 coxas de frango

uma latinha de atum

3 pacotes de batom

e um pão de alho enfileirado


Anote um sabão normal,

desses de esfregar a mão

e o de tubo

- coisa de gente vaidosa


Tome nota da pasta de dente,

mais conhecida como creme dental,

do refri de todo dia

um suco de uva de qualidade

e frutas que já venham cortadas

homenagem mor à preguiça


Tome conta desse Minas-padrão

homenagem à toda linhagem marital

e um potinho de requeijão


nessa poesia quase cotidiana

nessa riqueza toda de feirinha

a nossa lista em cima da mesa

o nosso amor escrivinhado na cozinha


Coisa de nós dois

tão singela

um parzinho de lingüiça apimentada

ria como for, meu amor

é nossa poesia de segunda-terça-quarta.

terça-feira, 15 de março de 2011

Mineiríssimo

Do que ela me disse já na porta de casa: é que mineiro gosta de cumprimentar dando abraço. Mas o caso é que é mesmo.

Mineiro gosta de abraçar a vida. Abraçar sem preguiça quem chega em casa. Abraçar suas vontades, sua felicidade, com um punhado de prosa, com mesa pronta. Mineiro só é miudinho no jeito de falar. De resto, é um escancarado coração pro mundo. De não caber de tanta gente que adota pelo caminho, fazendo de cada vida um bocadinho da sua. É um sorriso portas-abertas, do nascer do dia ao cansar do sol. Mas não se engane pensando que nessa colcha de lã, não existe os nós fora de linha, o desgoverno da agulha. Que a chama que moldou a caçarola, não ardeu na pele. Mineiro conta suas contas. Remenda suas dores. Silencia seus cantos. E amanhece inteiro pra fazer o melhor que pode de cada dia, com o mesmo gosto com que faz os seus doces. Sábio quem recria a vida, e ainda acerta pôr um sopro de canela. Mineiro acredita que a vida é "bôua", e deseja tanto isso pra quem vem. Mas a vida só é boa porque tem gente assim, que põe mais amor em tudo que faz. Que entrega os braços para o trabalho, e o pensamento pro alto, pra não perder o trem.

Da próxima vez que um mineiro te convidar, não perca a oportunidade. Abrace e seja mineirim também.

segunda-feira, 14 de março de 2011

VEM AÍ


Continuo feliz-feliz com o aniversário que está vindo. Eu acho que é isso: eu nino meu aniversário, como um bebê que nasce, e que tivesse mesmo que ser feliz. Eu preparo seu quarto, arrumo suas cortinas na janela, ponho as cores amarelas, azuis , brancas, em cada cantinho. E encho de perfume esse tempo de vida, esse espaço-quarto para tantos sonhos, numa mistura de agradecimento e pré-abraço. Recebo com o cheiro de mar. Recebo com os olhos brilhando. Toda vez que ele vem chegando, sinto. Mas não me sinto apenas, aquela que vai soprar a velinha, mas sinto todos. Sinto todos com um sorriso imenso. Aqueles que fazem meu coração pular, que já dividiram comigo dias dos mais gostosos, momentos que parecem cenas de filmes na minha cabeça. E como elas vêm e vão, como pequenos curtas, me fazendo sorrir mais e mais. Sinto todas. E quero por perto. Para ouvir, para falar, para abraçar dessa forma diferente, com a vontade que viaja e atravessa. É dia meu, é dia nosso, é dia deles. É uma festa de um tempo novo que quer nascer. Vamos colocar nossos chapéis de novos pensamentos na cabeça. Vamos pegar nossa língua de sogra de novas palavras, soltas e livres, indo e escapulindo dos lábios. Vamos petiscar nossos momentos-doces, achocolatas manhãs, tardes de silêncio e paz. Vamos encher as nossas palmas para aplaudir a vida e pedir por ainda mais amor, como quem enche o teatro e o peito. É uma festa com você. É uma festa de todo dia, do dia que continua, com um entusiasmo recém-nascido. Venha que vamos.

Feliz dia que inaugura tempo novo.