sexta-feira, 10 de abril de 2009

Entre tantos, de repente. Pelo olhar, você já sabe que é igual. Gente como a gente, que parece ter saído da mesma fábrica, mesma série, vindo ao mundo com a mesma missão. Você reconhece pelo sorriso, pelo abraço, até pelo jeito que abre a porta. Aqui dentro, chega a dar uma alegria, íntima e discreta, de ter encontrado nesse mundo tão grande alguém que você já conhece, embora tenha visto agora. A unidade é de alma. A afinidade é de primeira. Os risos são sincrônicos. As palavras são gentis umas com as outras. As piadas são cúmplices. As confissões se compreendem. São pessoas que já têm licença para passar, no quarto, na sala, na portinha do seu coração. E só de ver vivendo, dá uma felicidade, um orgulho, como se você tivesse encontrado a si mesmo. Você torce sem razão. Você ama sem dizer. Você protege sem que ninguém perceba. Entende sem que se diga nada. E mesmo que vocês se distanciem, fica sempre uma energia boa, um eco desse encontro vibrando no tempo. E a certeza, silenciosa, de que cada um tem que seguir, continuar a ser o que é, para andar por esse mundo colorindo o caminho.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sou grito demais para seu jeito sutil,
Sou gesto demais para seu tom calado.
É que meu amor é assim,
Desengonçado.

Mulher tem mania de amar incondicionalmente. Sim pelo sim, não pelo não. Mulher não pergunta para gostar. Não entende para querer. Não espera para ir atrás. Mulher abraça a vontade que nem é sua. Mulher apara seu choro com beijo, quando não impede você de chorar. Mulher sonha com seu sonho. Ri com sua risada, mesmo que não tenha assim tanta graça para ela. E apesar do homem ser o tal do protetor, é a mulher que cuida, que guarda, que se debruça sobre sua vida como ninguém. Mulher nasce sabendo amar. Não que isso faça ela deixar de ser quem é. Mas é que ser mulher é irremediavelmente ser amor.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Para que se escreva, viva. Dê a sorte de entre uma esquina e outra se apaixonar. Sem muito, sem razão. Para que se escreva, ame. E gire, e declare, com ou sem megafone na mão. Pra que se escreva, estenda a mão até sentir o calor da outra pessoa. Dê uma risada sem hora, que hora nenhuma é calculada nessa vida. Para que se escreva, solte: os braços, as pernas, o tudo, a imaginação. Para que se escreva, pare. Só para ver um pouquinho o sol se despedindo. Para que se escreva abrace, mesmo que à distância. Viva, mesmo que nos intervalos. Gaste, mesmo que conversa. E brinque e dance e seja. Deixe os pés livres. Siga amando a natureza ou respeitando a sua. Para que se ame. Para que se chore. Para que se pinte. Para que se ria. Para que se desça a montanha-russa. Para que se grite. Para que se escreva: sinta.
Desculpe a minha falta de vontade para a segunda-feira. Para o feijão marrom. Para a sinaleira. Para o nescau com pão. Perdoe essa minha insistência em abrir um buraco, e sair do outro lado da porta, do mundo, da rua. Ando desenhando em cima dos relatórios e das faturas de cartão. Ando dobrando canudos e fazendo esculturas com arame de biscoito. Olho para o relógio e não vejo sentido: quem deveria estar caminhando era eu, não ele, o ponteiro. Perdoe essa minha briga com o comum, talvez seja só preguiça pra fazer qualquer coisa que não dá vontade. Tudo na vida deveria ter entusiasmo. Eu sei que é um sonho, eu sei. Mas quão bem-feitos seriam os pães, as ligações, as entregas de pizza, as faixas pintadas no muro. Queria pôr um pouco mais de arte nos dias, porque arte é o espaço arranjado para a imaginação. Eu me alio aos cobradores de ônibus, que andam para os caminhos todos e não vão a lugar nenhum. Aos caixas de banco, que entregam dinheiro e quase nunca participam da realização dos sonhos. Aos vendedores de bala que não podem perder tempo sequer mascando chicletes. A eles, minha verdadeira solidariedade. Há que se ganhar a vida, eu sei. Mas há que se colocar mais vida no dia que se ganha. Interpelar as pessoas, conhecer, gostar do que ninguém gosta, fugir cinco minutos, parar pra ver uma reportagem na tv. E sonhar, como eu, que vai largar tudo para viver do que se tem vontade. Pode ser que não aconteça. Mas esses minutinhos – apenas sonhando- já vão fazer valer muito mais o seu dia.