sexta-feira, 17 de abril de 2009

Filho já nasce gente. Por mais difícil que seja acreditar. Persistente, preocupado, vezes silencioso por natureza, calmo sem remédio, como se já conhecesse a vida, mesmo que tenha acabado de chegar. Mal olha você nos olhos e já emite uma opinião, estalada e certeira, derrubando por terra a sua ilusão de poder escolher o mundo para ele. Filho nasce com sua sabedoria, seu mecanismo original e indecifrável de lidar com o mundo, atravessando, sobrevivendo, acalentando com a ponta dos pés ou transformando. Ao passo que se ensina, se aprende tanto. De onde surgem o magma dos filhos? Quem os fez como são, com sua graça, sua poesia escapando entre as janelas dos dentes? Tanto de gente em tão pouco corpo. Tanta vida em tão delicadas expressões. Tanto amor em tão pequenos olhos. E de onde nascem as mães? Filho já nasce gente, se percebe, mas mãe não nasce mãe. De onde tiram o sim, eterno e teimoso, que enfrenta o peito robusto dos anos, tão forte quanto o próprio amor? De onde inventaram essa mania de estar sempre presente, uma fidelidade voluntária, um compromisso que as faz renunciar, muitas vezes, a quem são. O que as prende? Com que tanta delicadeza passam a vida, voltando os olhos para nós, com a cabeça inclinada em nossa direção, ainda que frágeis? Amor que não se explica, mas que se dilata na alma, ocupando um espaço sem tamanho. Que marca o tempo, que se faz presente, que se faz tão presente, mesmo que ausente – é só fechar os olhos.



Para Minha Mãe, Meu Amor. E para minha Vó Clélia, que emprestou tanta ternura para compor minha alma e que me deixou uma grande saudade.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A natureza me deu lábios finos, bem delicados,
para que eles não tivessem força de prender as palavras.
Tudo para um poeta dura mais. As horas, um encontro casual, um papel voando, a dor, a calmaria. Isso porque vive do que sente, e cuida para que o sentimento vibre, feito corda de violão, por intermináveis segundos, dentro da sua alma. Um poeta sabe capturar: prender entre os dedos uma mínima emoção. Dá-lhe um nome, um lar, uma roupa, um destino. E ainda que tenha alma aberta, feito porta escancarada, é difícil encontrar um único sentimento que queira ir embora. Quando não se apega ao criador, com tantos mimos que recebe, encontra uma saída tão embaralhada que acaba ficando, feito mobília da casa, em algum corredor. O poeta ama de tal forma, e com tanta intensidade aquilo que sente, que seja triste ou contente, idolatra-o com o mesmo amor. É mais do que uma inspiração, é sua companhia nesse solitário trabalho de sentir as abas do mundo. E quando chega a hora da despedida, então o escreve justamente, desarmado e rendido, arruma-o com calma, dissolve-o em linhas, e deixa que corra sozinho, pelos últimos minutos, manchando o papel.

Meu discurso é sem receitas. Hoje, só hoje, abrigo de opiniões. Estendido feito mato, aberto feito céu, amoroso feito gente. Permite que se cheguem, só hoje, sem assustar ninguém. Que deitem em suas músicas, que sintam o gosto de suas rimas. Venham porque ele chama, suas frases são quase um convite. Envolvem sem apertar, cobrem sem prender. Não se nega a alguém assim o gosto da entrega. Peço que vocês estejam hoje, só hoje, tão sem maneiras como ele está.

quarta-feira, 15 de abril de 2009