sexta-feira, 1 de maio de 2009
Pré-cirurgia - carta a ela.
Ah, amiga, não se assuste. Estamos sempre nos despedindo, nos deixando de alguma forma. E sim, claro, às vezes largamos os quilos pelo caminho. De preocupação, de maus vividos dias. Quantas vezes, amiga, secamos, finalmente, de tantos costumes que nos pesavam, de tantos medos na borda da alma. E nos damos a feliz oportunidade de nos refazer. De experimentar a roupa folgada da liberdade, da permissão para simplesmente ser. Vai, amiga, porque é natural. Aqui fora nossa cirurgia nem sequer tem anestesia, vai sendo arrebatada pelos dias. Vai, moça, para nascer outra, para viver outra. Mostra para o mundo que você também aprendeu a deixar de ser você. Porque quer ser ainda mais. (Veja que para ser alguém verdadeiro é preciso, antes de tudo, não estar certo de quem se é. ) E na volta me ensina, amiga, com seu pouco peso e com sua cara nova, que para mudar é preciso muito de coragem e bem pouco de apego.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Até que eu descobri do que eu estava precisando urgentemente: do dia. Eu precisava do dia ali, no meio da noite. Do azul escancarado do céu naquela hora só minha, de madrugada, para vagar pela cidade deserta e fazer a vida a meu modo. Pouco me importava a companhia, eu queria gastar minhas vontades e estava disposta a construir a cidade sozinha, já que o céu não me acompanhava. Não se abria. Eram 2 horas da manhã e eu queria viver. Queria amanhecer pra mim. Minha psicóloga diria que eu estou querendo mandar até nas horas. Que seja. Estou é feliz de descobrir o que tanto procurava depois de beber o quarto copo de água, na escuridão da cozinha, e simplesmente continuar com sede.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Punho
É isso. Eu não gosto de olhar para os meus punhos. Sempre que eu posso, cubro-os com pulseiras grossas, largas e rente à pele. É que eles são assim: finos. Desde sempre, desde ontem de tarde, desde a infância. Me dá uma sensação de fragilidade imensa, como se o corpo já estivesse sentindo ou revelando qualquer das fraquezas que de vez em quando acham de dormir o meu espírito. Parece sempre que eu estou diminuindo, prestes a quebrar, quando na verdade é ele que não sai do lugar. Basta encará-lo para me perder, em plena sinaleira, no meio da minha vida: não sei mais se estou nos 20, nos 30 ou nos 8 anos de idade (E com certeza deve haver um tempo, um bendito ano que não quero voltar). Não comporta um pulso tão fino depois de tantas lutas, tanta coragem, tantos enfrentamentos na minha vida, não é justo. É uma pena que o espírito engrosse, inflame a casca e o punho continue assim. Lembrando sempre minha fragilidade. Minha meninice. Mostrando que no fundo, no fundo, droga, eu continuo embaixo da cama.
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