terça-feira, 5 de maio de 2009
Normal
Senhores, eu estou em parto. O amor empurra minha pele para sair, de todas as formas, em todos os ventres, e a minha tentativa de conter é para mim as verdadeiras dores do nascimento. Não se rende o amor aos meados das idéias. Aos dias cinzentos, aos sentimentos mudos. Dói não falar qualquer coisa que seja, ainda que seja a ausência do próprio amor. Esse texto é um alívio, uma expulsão. Um documento assinado por mim mesma de que a arte de expurgar é mais do que arte: é permissão para viver. Não sei existir entre quatro muros, nem mesmo as quatro muradas minhas, e não posso mais fingir me acostumar. Abri o rio. Eu confesso derramando letras e choros e suor e delírio: eu já estou por ele perdida, por ele rendida. Porque se nasci, nasceu comigo ele também.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Nasceu às avessas, o pobre, o sentimento. E de tamanha estranheza, nem sequer ganhou um nome de batismo, como se tem direito. Existiu assustado sob os olhares: horas de alegria, horas de lamento. Vivia sob um espanto admirável, indefinido, inofensivo. Todos lhe conheciam, todos lhe tinham medo. De forma que, como uma regra instituída, por meio de uma convenção, ficou decidido que seu nome não viria pelo nascimento, mas sim, pela morte: “Se vinga nessa terra, é amor. Se morre, é paixão.”
Sim, é possível amar um carro. É possível amá-lo com tanta força que a ida ao cinema passa a ser uma busca obstinada no mapa da cidade. Qualquer vulto de cor cinza metálica, no meio de uma conversa, de um almoço, de uma confidência, de um trânsito atrapalhado pode lhe chamar mais atenção que um pedestre em agonia. E quanto sentimos o espichão do pescoço. Paro na sinaleira, fortuitamente olho para o meio fio e lá está: quanto amor estacionado entre a calçada e a vala. Todos os carros do mundo de fundo cinza metálico são o mesmo carro, são a mesma pessoa. São igualmente amados por amor de mulher. E há que protegê-los, de um esbarrão qualquer, de uma falta de vagas. Transitam pela cidade levando de um lado a outro sua saudade, o cheiro daquele encontro, histórias inteiras de tanto segredo transportadas em quatro rodas, duas portas e nada mais. Sempre o seguimos, pelo menos até a esquina ciumenta esconder ele para sempre. Para sempre naqueles 15 minutos. Porque em todo lugar que vamos, na frente do supermercado, na praia, até na farmácia por um analgésico. Sempre você, de fundos arredondados, pneus bem encaixados. Sempre o mesmo frio na barriga. Toda mulher sabe o que é se apaixonar por um carro. Por um carro assim você.
domingo, 3 de maio de 2009
Tardes
Eu nem me lembro que horas eram porque as horas nem quiseram dizer nada. A graça era se perder no tempo. Meus olhos espalmavam feito folha de coqueiro e quanto mar havia, dentro e na beira de mim. Deitei meus pés sobre a areia e, naquele momento, minha alma era carinho para o mundo. Tão misturada estava que até meu fôlego tinha a pulsação da tarde. Foi a primeira vez que senti um silêncio que dança. Porque nada fazia movimentos bruscos, mas meus cabelos rodopiavam, anunciando a música que havia em mim. Deitei, para respirar na terra feito criança que se despoja no peito do pai. Derreti. Esqueci. Dormi. Senti tanta paz que eu parecia me dissolver no dia. Éramos eu e a tarde uma coisa só. Nunca mais tinha visto tudo em mim com tanta liberdade, em tanta sintonia, parecia que eu docemente me alargava, ganhando a extensão do universo. Nascer de parto normal deve ser assim - pensei assustada. Como ser acordado bruscamente de um sonho vespertino. E ter, por um instante, a estranha sensação de ter se desgarrado do mundo.
Dos dias de inverno
O bom da chuva é essa saudade que sobe junto com o cheiro quente de chão molhado. É o hálito amoroso da natureza. Me acalmo só em sentir chuva do lado de dentro. Me alegra ver as pessoas passarem tão vagarosas quanto o próprio dia, tão quietas como tudo lá fora. No frio todo mundo se esconde, fingindo que o dia é só seu. Mas não. Não se deve cometer o erro grave de querer que tudo se aqueça. Para que? A graça é sentir chuva sem se molhar, é precisar de um calor que é tão particular e que pode lhe vir por um sorriso nos olhos, por um encontro de mãos, por linhas de um capítulo, por gomas de açúcar, barulho de poças. Se não fosse a chuva, tão pouco despencaria uma torrente de vontades. E de auto-gentilezas. Que confidência é a chuva em casas de cobertor. Que confeito é o chuvisco em meios de semana. Como descrever a incrível sensação de pé gelado em lençol gelado e uma alma deliberadamente espaçosa, de largos sorrisos, embora embrulhada aos joelhos em um canto quente da cama.
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