segunda-feira, 11 de maio de 2009

Frio


Quem dera as palavras também saíssem como espirro. Assim, como uma coceira inevitável, uma força que de repente se vale do furor do vento e pronto – derruba todas para fora do corpo. E com um simples “saúde”, todo mundo entendesse, perdoasse. Tem horas que palavra precisa disso: de um desengasgo. Precisa viver, sair para conhecer o mundo, se lançar sem querer sobre a pele, o rosto das pessoas. É inverno, faz um frio, o ar gelado passa por mim arrepiando minhas letras e abusando meus olhos. Descrevo, saborosamente , sobre essa minha vontade de respingar ditados.

Há vezes em que o carinho, o querer bem, o sorriso, o abraço, vem antes da intimidade. E o sentimento, tão leve, vem antes das palavras. Simplesmente se adianta, pede pra ser, mudando a ordem natural das coisas. É como chegar em casa para arrumar a festa e já encontrar os convidados sorrindo. E como é engraçado tudo isso. Porque é um querer bem que embaraça, que deixa qualquer um desajeitado. Sabemos e não sabemos lidar com isso. É uma verdade que não se acomoda, que incomoda, viramos os olhos, sorrimos com rapidez, escapamos como se estivéssemos fazendo alguma coisa de errado – esse gostar sem se estender. Não é por mal, nem por querer mal, é por querer bem apenas. Uma vez escrevi que não estamos acostumados a esse sentimento despalavreado, sem muito assunto ou explicação, sem necessidade alguma de nada. Tão complicados somos nós que não conhecemos essa forma dele de existir, apenas existindo. Disfarço, desconverso, desato, pra esconder esse desassossego íntimo depois de uma afinidade súbita. Nunca vi gostar sem razão, entendimento sem garantia. Engraçado eu ser assim contrária: sempre tive mais medo da calmaria.
Eu sei, meu bem
Que seu amor é merecido
Muito mais merecido
Que qualquer outro apresentado
Mas o fato é
Que o amor nunca é merecido.
É dado.

Um dia todo bom

Ainda estamos lá, ouvindo a música por acaso certa, embaladas em almofadas e pedaços de conversas. Ainda estamos ouvindo alto, bem alto, o ritmo do dia, caminhando conforme a melodia, apostando em risos e em menos cabelos. Estamos deliberadamente, inescrupulosamente acreditando que tudo vai dar certo, e o que não estiver certo, a gente mesmo endireita. Estamos brindando na pista, na vida, um dia de chuva com jeito de sol, um riso teimoso, uma semana inteira cabendo em uma tarde toda ela, toda alheia. Acreditamos no começo da noite, na noite que se perde no meio, no fim que nem se conhece, que parece um de nós, imaginando como vai ser. Gargalhadas e tropeços e pedidos de mais chuva – tem buzinas no endereço. E eu sei que não é da nossa natureza, que a gente gosta mesmo é de inventar, é de criar. Mas o que eu quero mesmo hoje é muito mais de ontem.


(Um dia todo bom. E ganha a palavra dia, neste dia, uma extensão muito maior e muito mais infinda que um dia)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O porquê das rosas.


Se você perguntar a uma rosa se gostaria de ter nascido cacto, é bem possível que responda que sim. Porque lhe custa muito ter os espinhos apenas no talo e ter tanta fragilidade à mostra. É por isso que as rosas levam tantos dias para se abrir. É quase um parto, uma despedida de sua doçura, um convencimento de si mesmas, uma fé arriscada, uma superação, um lamento se revelar e estar para sempre à mercê do mundo. Ninguém quer a sina de ter tanta delicadeza exposta. Assim são algumas pessoas, pessoas-rosa. Armam-se de tal forma, como se cravando os dentes, pudessem esconder o orvalho no canto dos olhos. Quem não as vê de perto ou não tem coragem de desafiar suas pontas, não descobre a beleza esmiuçada de seus traços e o desejo ingênuo que carregam de ver o mundo por inteiro protegido. Para quem é rosa, a vida chega a doer mais. Porque não são preparadas para ver a fragilidade humana, a fraqueza do mundo, mal são capazes de lidar com a própria. O vacilar do mundo lhe cai as pétalas. E chora ser rosa.

Fechada é um não para a vida. É uma noite escondida no vermelho escurecido de seus lados. É uma privação do céu ao seu perfume. Mas quando decide não mais fingir a rosa que é, tudo acontece. Quando assume para si mesma a própria natureza, estende sobre a vida uma beleza aguda, com o seu desengonçado abrir de braços, desdobrar de sonhos, em uma ignorância bruta de rosa, mas com uma verdade, uma sinceridade tão grande, que faz o mundo também ser quem é, e perder o medo de uma simples rosa.