sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mensageiros do tempo


Existe um povo que vive. E vive simplesmente. Mas existe um povo que avisa. Que é luz de beira de estrada, é telegrama do destino, balcão de informação da vida. Tem gente que está no lugar certo, na hora certa, para lhe confirmar o caminho, lhe dar os suprimentos de viagem que enchem a barriga d´alma e aquecem as inquietações, feito uma manta encomendada. Gente estratégica. A palavra dessas pessoas é farol em noite de neblina. Chegam simplesmente sem avisar e estão lá, não por acaso, mas já esperando por você. O que você recebe delas não é nada menor do que a voz do universo. A resposta às suas indagações, o bilhete da passagem que vai te deixar na próxima estação, nesses trilhos horas tão duros, horas tão difíceis do caminho do crescimento. A essas vozes mansas, que atenuam corações e olhos dilatados, que são a notícia boa que viaja, mensageiros do tempo tão bem disfarçados pela despretensão, meu mais sincero agradecimento. Vocês são o marco de passagem em minhas páginas. O que encontrei nos olhos de vocês é luz para levar com os meus. Sigo com a certeza de que o encontro leva apenas o tempo necessário – a caminhada com os próprios pés prossegue sozinha – mas aquilo que recebi permanece agarrado a mim, por milhas infindáveis e tempos que me esperam, em um destino sem nome anunciado, mas aguardando com ansiedade o meu.



Dedico esse texto à Rose e a todos os amigos que me agraciaram com o mesmo papel.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A mulher que vive em mim.

Pouco me importa o que você pensa de minha aparência. Porque sou segura enquanto mulher. Pouco me importa o seu porquê entre os fios do meu cabelo, seu ar esnobe, seu desdenho. Não quero saber o que seus olhos têm a me dizer – porque palavra de olhos seus é rasa, é tão pouca de morrer entre a íris e a claridade, entre uma piscada e outra. Você só sabe ver o que está visto, até sua língua dança sobre o tédio. Não me importa mais o que você pensa sobre mim, sobre o desarrumado do meu cabelo, sobre a virtude da minha pele, meus passos, aquilo que exala quando existo sem fim. Não me importa porque sei a mulher que sou. E entenda: o meu conceito de mulher é que é grande, o meu conceito tão diferente do seu. Ser mulher para mim é saber imensamente. Coisa que seus olhos, seus dentes, seus ombros estão muito longe de alcançar. Sou a mulher que sinto. Sou a união de todas, transpiro em mim todos os punhados de luz. Meu cerne está firme, não se ampara no que você diz, nem no que vem dos dedos, seus medos, seu verbos sem freio. Sou o que vem do meu ventre e o infinito em mim não me escapa. Minha beleza por vezes é mansa, mas aquilo de que sou feita tem força incomum. Se tenho que confiar em algum olhar, confio no meu, que vê além da claridade.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Tinha um rosto masculino. Uma alma tão doce com um rosto masculino. Aquele contraste me chamou atenção. Ela caminhava assim, e quem a conhecia de vista, só podia ver a armadura que a própria vida lhe deu. Vai ver para esconder tanta doçura, vai ver por uma distração do destino ou só para mostrar quão imprevisível a natureza pode ser. Bastava trocar algumas palavras para ver como se derretiam, olhos, braços, queixo, corpulência. Tudo se tornava uma doação de amor, uma singeleza de viver. Ela, de rosto tão masculino, conseguia transformar o tempo em um tempo feminino, um vento todo feminino, o dia em feminino, o socorro em feminino. Com suas delicadas mãos, ela impregnava nossos encontros com a calma e a gentileza que pouco se vê pelo mundo, fazendo com que todos, um a um, quisessem deitar sua alma naquele jardim. E mudava, assim, o rosto da própria vida.

Engenharia da vida

Minhas unhas não caem. Não caem. Não me deixam nua, desamparada, em choque com aquela nova situação, tão estranha. Na sabedoria da natureza, a unha nova vai substituindo a antiga, nascendo calmamente e empurrando a outra com o máximo de discrição. Foi aí que me dei conta da minha própria natureza. Em como eu estava vivendo a mesma coisa, dentro de mim. A antiga Luise não descolava, feito uma tampa, enquanto eu andava pela rua, me deixando para sempre livre dela. A mudança era artesanal, meticulosa. Eu não era a pessoa nova que nascia, branca como carne de unha, viril e tão cheia de beleza. Nem era o escurecido da pessoa velha, tão dolorida e estranha, sendo empurrada pelos dias. Eu sou a mancha, a mistura. Sou o exato momento em que as duas existem juntas, a passagem – e há tanta beleza na feiúra. Eu sou o manchado que dá forma à transformação, sou a própria delicadeza da vida em me reconstruir. E existe de uma forma tão bonita tanto das duas em mim! É verdade que às vezes minha parte antiga também me doí, feito unha encravada, e eu me confundo. Mas ela é também morta, tão morta quanto o tecido de uma unha, e o fato de ainda estar agarrada a mim não a faz viva. É o contrário da outra que tem o fôlego novo de quem nasce e não pede permissão para chegar, ganhando seu espaço dia após dia. Sorrio de canto ao ver tanta beleza nesse estado, na manufatura da alma, na engenharia da vida, e passo a confiar mais no que a natureza planeja. Mas nem sempre nos conta.

Primeiro encontro. É o final feliz dos melhores contos. O primeiro gole do vinho a conhecer a língua. As palavras exatas peneiradas do dicionário. As promessas que nem precisam ser feitas. Os sorrisos que nem precisam ser convidados. Os olhares completamente encostados. Os melhores beijos conspirando de encontrar as bocas. Um clássico de cinema antes mesmo de ser lançado. A história perfeita de uma página só. Os palpites de dezenas de palavras não ditas. Os risos que também são música.

(O silêncio e o perfume.)

O fantástico instante vivendo entre o que nunca aconteceu e o que quer acontecer. Os passos em perfeita sincronia, mesmo sem levantar. O discurso de um fôlego só. O homem de toda uma vida de um nome recente. A mulher que é a sua, e ainda não é. O fatídico encontro entre o que implora e o que não se diz. A história desconhecida onde já se conhece o final.