terça-feira, 16 de junho de 2009

Preciso dividir-me


E eu, como sempre, querendo parar o mundo para contar das duas taças sobre a mesa, e da maneira como o mundo de repente me pareceu escorregadio, como se toda frase fizesse cócegas e descesse deslizando pela minha pele até se enroscar, atrapalhando meus pés. Era só um dia normal, com as campanhas sobre a mesa, mas eu queria mostrar da largura do meu sorriso, do momento em que eu consegui, bravamente, fazer até o relógio de Londres parar – sorrateira na madrugada, deve dar nos jornais. Mostrar que eu sei, eu possuo a habilidade de fazer isso: mandar nos ponteiros, paralisar rotinas se alternando em carrossel, uma depois da outra. Fora isso, ainda tinha o perfume, como eu iria olhar matérias tão estampadas nas caras, tão cotidianas, bom dias tão envelhecidos, se o meu dia não tinha nada de comum? Sinto pena, tão doce alegria que nem merece morrer em mim, sem poder colocar as pernas para fora de minha boca, convidar mais umas pessoas para um papo de cordas, tomar um ar pelo buraco onde eu respiro. Alegria também quer escapar, como a gente quer, em uma segunda à noite, sem lugar aberto pra ir, sem hora permitida, com a chuva ainda assim acontecendo, e a gente inventando. Inventando sem fim. Aquela hora atípica, aquele dia intervalo, aquela liberdade quase mágica de quem sabe que a vida espera, a vida sabe que vai ser criada. E se arruma pra ser.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Para Carol levar na viagem




Sorridente movimento. Sente. Tanta alma escapando entre os dentes. Tantos meninos em um mesmo olhar. Tantas vidas em pontas de dedos, que quase grita a pele. Há tapetes de nuvens lá em baixo, mas aqui dentro não há gravidade. Só leveza, é só o que tem. Soltamos os pés devagarinho, mas algo em nós já caminha longe, pulou com o vento do trem. Apertamos papéis para que o tempo passe, vai de um lado pra outro uma conversa de caixinha, em breve seremos nós. Lá fora neva, carimba, canta, faz frio, deixa escorrer sonhos mornos pela janela. Mas não temos coragem de colocar tanta poesia por trás da cortina, espiamos tudo, metade de nós do lado de fora. E se embaça, é o respirar da vida, suspira ela. Olho para a porta: uma mala é sempre uma. É sempre pouca, porque levamos o que somos e voltamos infinitos. Nunca nos cabem as vontades dobradas em uma mala só, etiquetada. E nunca comporta as experiências, as risadas nas escadas, os silêncios entre os braços, ou pagaríamos excesso de peso. A graça é ser viajante, é ser tudo tão livre, tão presente e despedido, como passam os postes acobreados, as crianças vermelhas, os olhares, os artistas. Como rodam as músicas, os abraços. Tudo passando em volta de nós, e a gente como que girando, querendo segurar o mundo por mais instantes. (E é bom saber: uma parte dele também fica para sempre, viajando em nosso peito). Há tanto para se ver - diz para si mesmo. Voe. Eu finjo de conta que não vi. Pode fingir ser o que não é, pode viver outras, pode amar sem nem saber que ama. Sem contar as medidas, sem. Estire-se sobre uma grama. Volte cheia. Volte ainda rindo, sem saber muito o caminho de casa. Volte se perguntando de tudo isso, entretanto, será, porque quem descobre fica assim, inquieto. Quem sabe, não te encontro ainda por lá, decorando uns postais ou pintada nos selos. Quem sabe não te encontro lá, tão misturada ao velho som de um violino. Quem sabe não há cores todas trançadas na volta do seu cabelo. Porque se Paris chega a você, quanto de você derrama em Paris. Nunca mais será a mesma, não sairá intacta desse encontro, ingênua cidade. Vive. Escuta esse som desnudo: vive. Porque isso é o melhor que posso te desejar, e por sorte, é tão seu.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Para o meu gordOsho pai

Tão gratuitamente me é dado tanto
Que só em pensar
Tudo em mim é leve, é manso
Em ler suas letras posso te ouvir
Com o mesmo tom de voz e de amor,
Como se falasse na rede, há anos atrás
Mas acontece – e encho os olhos
Que hoje ainda te amo mais
Por vezes me perco na idade
Somente olho
E me parece um menino
Mas teu amor é antigo
E guarda a sabedoria
de um ancião
Como me preencho em tuas mãos
Que saudade sinto em tanto silêncio
Sonho, como sonho
em um dia ver seus cabelos se tornarem claros
Como clareia a manhã e aura
Os campos de trigo
Confessando um perfume tão doce
Quanto a poesia de sua calma
E ver que em tão lentos passos
E em tão brancas mãos
Mora ainda o mesmíssimo sorriso
E aquele que amei,
Que sempre amei,
Teu coração.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eu penso ao invés de


E sentir essa coisa tão simples e alegrina ao invés de. Tantos medos, tanto tempo engavetado. E olhar o sol ao invés de contar do escuro que tenho visto entre as pálpebras. E esquecer da dor, ao invés de tratá-la bem, com tantos cuidados, com tantos olhares. Dor é como gente: quando bem tratada não quer ir embora. E simplesmente abraçar porções de amigos, cantar qualquer beleza da vida, a mais simples, a mais fútil, ao invés de encontrar um motivo para franzir a boca. E arranjar um espaço para esperança, afastando as mobílias do coração, ao invés de viver sem a companhia dela nem de ninguém. Quem sabe com tantos invés, a gente consiga o revés: consiga virar o peito do avesso, de forma que alma fique toda pra fora, estufada e exposta, e vendo a beleza do mundo, se renda e viva com uma vontade imensa. Quem sabe assim, tão protuberados de nós, a gente chegue mais perto de conhecer a grandeza que abrigamos aqui dentro, mas que deseja ser, desde que nasceu, simplesmente livre.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

FOGO NO AÇO
A MOÇA NO VENTO
SE FAÇO QUE PASSO
SOU LENTO, SOU TEMPO
SE OUÇO O CANSAÇO
SOU TEMPO, SOU LENTO
MAS SE DE REPENTE
DESCOMPASSO
SOU AÇO
SOU FOGO NA
CERNE DO VENTO
AÇOITE DE LUZ
SOU ILHAÇO
SOOEI, SOEIRA
SOOU, SÓ ARDE
FLAMEJA NA TARDE
SOU CORDA DE CHAMA
QUE QUEIMA
QUE ARDE
O VENTO DA TARDE
MAS QUEIMA,
QUEIMA.