quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sem explicação.


As histórias não me são perigosas quando me existem. Não, nenhuma delas. Nem quando o sol sangra lá fora. Nem quando a noite cai, me engolindo, e nos transpassando com dúvidas. Ferros, figas, dragões. As histórias me são perigosas quando me fogem. Quando escapam, somem de minhas mãos sem pontuar, me deixam em pé sobre livros vazios. Sem falas, sem choros. Eu sei viver cada linha de história, ainda bem, eu sei viver! Mas não sei o que faço com a retirada, com o vácuo que é tão presente em nós, que é quase como se fosse a própria história. Às vezes dói, às vezes ama, encorpada ausência. Esse intervalo, o lastro de um tempo não mais, me incomoda. Como se eu vivesse ao mesmo tempo duas, mal vividas: nem estou aqui, cuidando da fila da pão, nem estou lá, onde quero estar. As linhas se retiram, mas deixam os sentimentos. Esquecem os cheiros pendurados em nós. Deixam vestígios, roupas pelo chão, vez ou outra sem retrato. O que fazemos com tudo isso? Como montamos. É difícil entregar ao mundo, com a mesma liberdade com que aceitamos. É difícil ser tão líquida como a vida, deixando-se escorrer, deixando-se levar. Entendendo que tudo vem e passa e acontece, formando figura lá fora e no universo de mim. Que somos nós senão essa coisa também tão espalhada, feito o instante, feito o segundo. Somos a mesma coisa por onde as coisas correm. Com mais amor, com mais pessoalidade. Respiro, assim, como um suspiro ou um consolo, esperando do mesmo tempo que veio me trazer. Aguardo silêncios de bondes, de trens. Revivo uma despedida algumas vezes, até crio, só para ter um pouco mais. Tento descobrir como é que se faz, porque deve ser a parte de crescer. E acostumo a meus pés, de um jeito natural, a levantarem-se da última pegada, deixando cair flocos de terra, ainda tão sujos - eu diria contaminados de tanto ontem, para seguir sem paradeiro, certos apenas, desse movimento.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Poema caipira

(inspirado em uma chefe bem cosmopolita)


E quanto mais

a mulher me empurra

Mais eu enteso

Feito burro n´água

Mais o ombro prende

Mais o corpo atrasa

Porque o que eu quero

É leseira

Eu nem sei que dia é hoje

Se é sábado, domingo-feira

Eu quero é abrir meu bico

Esticar minhas Penas

Faz um sol danado lá fora

E você cheia de caramiola

Me deixe ouvir o tilintar da vida

O zinoim do tempo

Meu ritmo hoje é marcado

É um jingado quase lento

Eu quero é um aconchego de lado

Demorar na risada gostosa

Molhar meu pé, encharcar palavra

De qualquer coisa melada e enjoada

E você com essa cara

Sem entender nada

Veja, já é sexta-feira

Me deixe esticar meu cangaço

E se tiver um motivo pra rir

Descanse esse muro

Estenda esse braço

E me encontre, mulher

Que não há motivo

Pra tanto

estardalhaço.

Mesmo assim eu vou vivendo
de um jeito bom e atrapalhado
sabendo o tanto que a gente vive
e amando o tanto que é inventado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Preciso dividir-me


E eu, como sempre, querendo parar o mundo para contar das duas taças sobre a mesa, e da maneira como o mundo de repente me pareceu escorregadio, como se toda frase fizesse cócegas e descesse deslizando pela minha pele até se enroscar, atrapalhando meus pés. Era só um dia normal, com as campanhas sobre a mesa, mas eu queria mostrar da largura do meu sorriso, do momento em que eu consegui, bravamente, fazer até o relógio de Londres parar – sorrateira na madrugada, deve dar nos jornais. Mostrar que eu sei, eu possuo a habilidade de fazer isso: mandar nos ponteiros, paralisar rotinas se alternando em carrossel, uma depois da outra. Fora isso, ainda tinha o perfume, como eu iria olhar matérias tão estampadas nas caras, tão cotidianas, bom dias tão envelhecidos, se o meu dia não tinha nada de comum? Sinto pena, tão doce alegria que nem merece morrer em mim, sem poder colocar as pernas para fora de minha boca, convidar mais umas pessoas para um papo de cordas, tomar um ar pelo buraco onde eu respiro. Alegria também quer escapar, como a gente quer, em uma segunda à noite, sem lugar aberto pra ir, sem hora permitida, com a chuva ainda assim acontecendo, e a gente inventando. Inventando sem fim. Aquela hora atípica, aquele dia intervalo, aquela liberdade quase mágica de quem sabe que a vida espera, a vida sabe que vai ser criada. E se arruma pra ser.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Para Carol levar na viagem




Sorridente movimento. Sente. Tanta alma escapando entre os dentes. Tantos meninos em um mesmo olhar. Tantas vidas em pontas de dedos, que quase grita a pele. Há tapetes de nuvens lá em baixo, mas aqui dentro não há gravidade. Só leveza, é só o que tem. Soltamos os pés devagarinho, mas algo em nós já caminha longe, pulou com o vento do trem. Apertamos papéis para que o tempo passe, vai de um lado pra outro uma conversa de caixinha, em breve seremos nós. Lá fora neva, carimba, canta, faz frio, deixa escorrer sonhos mornos pela janela. Mas não temos coragem de colocar tanta poesia por trás da cortina, espiamos tudo, metade de nós do lado de fora. E se embaça, é o respirar da vida, suspira ela. Olho para a porta: uma mala é sempre uma. É sempre pouca, porque levamos o que somos e voltamos infinitos. Nunca nos cabem as vontades dobradas em uma mala só, etiquetada. E nunca comporta as experiências, as risadas nas escadas, os silêncios entre os braços, ou pagaríamos excesso de peso. A graça é ser viajante, é ser tudo tão livre, tão presente e despedido, como passam os postes acobreados, as crianças vermelhas, os olhares, os artistas. Como rodam as músicas, os abraços. Tudo passando em volta de nós, e a gente como que girando, querendo segurar o mundo por mais instantes. (E é bom saber: uma parte dele também fica para sempre, viajando em nosso peito). Há tanto para se ver - diz para si mesmo. Voe. Eu finjo de conta que não vi. Pode fingir ser o que não é, pode viver outras, pode amar sem nem saber que ama. Sem contar as medidas, sem. Estire-se sobre uma grama. Volte cheia. Volte ainda rindo, sem saber muito o caminho de casa. Volte se perguntando de tudo isso, entretanto, será, porque quem descobre fica assim, inquieto. Quem sabe, não te encontro ainda por lá, decorando uns postais ou pintada nos selos. Quem sabe não te encontro lá, tão misturada ao velho som de um violino. Quem sabe não há cores todas trançadas na volta do seu cabelo. Porque se Paris chega a você, quanto de você derrama em Paris. Nunca mais será a mesma, não sairá intacta desse encontro, ingênua cidade. Vive. Escuta esse som desnudo: vive. Porque isso é o melhor que posso te desejar, e por sorte, é tão seu.