quinta-feira, 5 de novembro de 2009

(Para pôr um título)

Se eu soltar a língua,

Se eu soltar o verbo,

Junte a letra solta

Forme um só verso


Se eu errar no tom

Se eu quebrar a métrica

Faça um som do bom

Sopre a nota certa


Pois apesar dos erros

De cálculo e de régua

É seu amor que eu canto

É pra você minha festa


É pelo zumbido bom

Que vem do fundo do peito

E pega a gente de jeito

Até no silêncio do dia.


Nosso amor é assim. Vezes dá samba. Vezes dá poesia.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Confissões jardinais

Fico feliz porque agora você já me viu derramada, sem hastes nem contornos que pudessem me fazer pessoa sólida. Fico feliz porque alguém já escutou meu choro – a força que vem da minha dor, transformada em música, ensurdecendo todas as razões comuns. Fico feliz porque a flor já tirou a sua roupa: ja está desnuda, borrada, enxuta. Mas ainda com seu amarelo de flor. Fico feliz porque você sabe que não é todo dia que meu dia gira. Que o sol aparece e enlarguece meu sorriso de gente. Fico aliviada por você ter visto minhas cores e descolores, meus atravessados e recortes. Saímos da superfície e remexemos a terra, e só em terreno mexido é que temos a chance de enraizar amor. Estou escancarada, revelada, contra toda tentativa de me emborrachar em uma máscara de carnaval. Agora você conhece a dor. Agora você conhece a flor. Agora você conhece Eu. (suspiro). E por incrível que pareça, é bom me ver viver como sou.  Afinal, assim como você, eu também estou aprendendo a me amar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

5 minutos antes de dormir

Meu amor, mulher não dorme. Mulher experimenta um amor tão suave que chega a fechar os olhos. Mulher não se cobre e espera a hora de dormir. Mulher se recolhe entre braços, para acreditar uma vez que o mundo é mais seguro. Mulher não desacorda apenas. Sonha muito antes de começar a dormir. Mulher não diz boa noite e se apressa. Olha nos olhos com calma, para ter certeza de quem escolheu, para se ver em outro. Meu bem, mulher não forra a cama e se prepara para descansar. Mulher descansa é sentindo, no calor de um abraço, que ela pode se derramar, porque tem quem a proteja.

Mulher não dorme. Mulher se sente amada enquanto finge dormir.

Pálida cidade

Chovia uma chuva fina branca, um descolorante de cidade. Respirava frio, numa aflição do passar das horas, num esquecido entre os carros. Nem parecia sexta. Nem parecia dia nenhum. Nem sabia ao menos onde estava eu, se não fosse pelo agudo insistente no peito. Às vezes a chuva é sua cúmplice – você sabe que dentro de você alguma coisa também quer derramar. E se não for para mostrar o riso, melhor mesmo que chova, para escondê-lo entre os casacos. Não deu tempo de reclamar. Nem de reparar no sinal que acabou de abrir. Olhei para cima e vi na janela, na brecha da Cortina, uma mulher que segurava um bebê e balançava, balançava, olhando para ele. Segundo parado. Pedido de pausa da vida. O mundo parecia cinza, mas naquele momento era branco, cabia entre os braços e cheirava a carinho. A moça somente embalava seu filho. Em um ritmo fora do mundo, em um silêncio longe dali. Mas com um amor que atravessava a janela e dava abrigo a quem estava do vidro pra fora, congelado em vida comum, esquecido de viver. Éramos todos ninados por aquela mulher. Bom poder sentir em cidade tão fria, um pouquinho de calor.

Meu coração nasce flor
Beirando e pingando na estrada
Hora chorando de amor
Hora divagando acordada.