quarta-feira, 18 de agosto de 2010

H

Homens.

Homens de mão grande

De caber o mundo

Mãos abertas,

Como a segurar o ar

Homens de peito

Atravessando o espaço

Como quem rompe o mundo

Com força, com avidez

[é preciso ter cuidado com o atropelar das rotinas

Homens de mão grande coçam a cabeça

Porque lhe cabem pensamentos demais

Homens andam de um lado

Para o outro

como uma Grande Cruzada

na sua sala de jantar.

Homens de mão grande

Franzem a testa

Apertam os olhos

E fazem silêncios imensos

Em seus planos de batalhar

De conquistar o invento, o tempo,

o trunfo, o programa da tv.

Homens franzem a testa

Quando só querem carinho

E derrubam seus corpos imensos

Ao nosso lado

Homens não falam

Homens andam

Homens braços

Com seus reservátorios de amor

Somente visitados por nós

[ nos horários em que os portões se abrem

Homens com seus exageros

De robustos sonhos

De encorpadas vozes

De tantas vidas

Em uma vida homem

[suspiramos

Quase sem ver

o tilintar das xícaras

e a rouquidão da manhã.

Homens dormem homens acordam

Barulhentos e idos

Sob o nosso olhar

delicadamente atento.

Um sorriso de uma médica que entra na sala atrasada. Um raio de luz nas suas costas na hora de abrir o carro. O convite para entrar na sala que você queria. O discurso que te distrai. A alegria de quem nem te conhece direito. Quando você precisa, a vida te abraça de muitas formas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

apelo

De repente um feixe de luz entrou com todo peito, encorpado e cheio, como alguém que invade a sala gritando. Aproveitou os seus segundos e cuspiu com uma força tremenda. Era um raio dourado e lambeu de cor o cabelo da moça, que apenas digitava em seu computador mais letras repetidas. O raio fez como um tapete, abriu caminho esperando que alguém se levantasse, que percebesse, que se erguesse da vida e corresse para o mundo afora. Mas a porta foi fechando, o raio foi diminuindo, secando, como um último suspiro. Porque tinha entrado, coitado, pela brecha que encontrou: a porta do elevador.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O que movimenta meu amor.

O que movimenta meu amor é até o tiquinho de movimento: aquele olhinho apertado abrindo e vendo que o outro está ali na cama. Aquele segundo-infinito, enquanto sua cabeça encontra um peito-travesseiro: ele distraído com o tagarelar da televisão e eu fechadinha em flor, encolhida naquele mundo de amor particular. O que movimenta nós dois é a bossa, é até o friozinho da manhã de domingo. É a meia arrastando pela casa em direção à invenção do almoço na cozinha. É o riso, totalmente nosso, tão sincero quanto ligeiro. É o som do violão na cama, enquanto ele canta e recanta as histórias, e eu me embolo em lembranças e lençóis. É o abraço que quanto mais aperta, mais pede pra ser apertado, até que alguém enjoe e reivindique um espacinho. É o ritmo apressado dele, é a perguntação dela, são as tecnologias dele, as filosofias dela… Que no final do dia, que no passar dos anos, sempre se encontram no encontro entre os dedos, nas mãos balançando…. em pleno movimento.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

branco banco

Aquele banquinho encostado guardava uma centena de tardes com gosto de conversas boas. Ele era inteiro branco, por isso o próprio tempo gostava de se assentar ali. E quando a gente sentava, era como se descolasse da vida e já se tornasse bem velhinho, em apenas quatorze segundos. E então para nós o gostoso se tornava ver a vida dos outros passar, com seus cachorros de mão, com suas preguiças de expediente, seus sapatos chutando vento, suas fabricações de família. E de repente a nossa própria vida passa então mansa pela calçada, acompanhada pelo nosso olhar, como um suspiro longo e grato... Uma breve pausa para o alívio de viver - que fica ainda melhor com o friozinho da tarde. É o minuto em que os sonhos param um pouco de pedir e as pernas de correr. Levantamos. Recuperamos então nossas dores nas costas, nosso dia pelo meio, nossas obrigações civis e as mãos nos bolsos. Talvez até a própria idade, uns dez passos depois. E seguimos, escrevendo a própria história, em passos um pouco mais lentos, em linhas um pouco mais longas.