terça-feira, 28 de setembro de 2010



eu decidi
sem muita pompa
conversa ou alarde
assim como quem abre
a janela
desperta no meio da tarde
que viveria esse dia
em soltura e em verso
concentrada em encher o peito
em manter o espírito aberto
Não queria mais das horas
nem do futuro, nem do amanhã
queria meu café de tarde
meu cheiro no pescoço
e cuidar do desgosto do dia
quando me aparecesse o endosso
por enquanto nada mais
já é muito o que a vida traz
quem pensa mais do que sente
vive para si, quase ausente
da fartura do mundo
e eu, ao contrario, distraído,
vivo a parte que me cabe
vivo gozando de estar vivo
chamando esse cansaço gostoso
e essa entrega total
de minha paz primeira
a que leve passeia.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

M


Mulher


Em pé.

Mas em seu olhar

há algo de longo

há algo de seguro

há algo de seu

muito seu

Eis o que havia conquistado

Soube formar-se no próprio ventre

agora era ela

Uma Mulher

Em sua fecundidade

de dons.

Tão plena quanto inteira

os pés nus sobre o tapete

A pele reluzindo com os olhos

Verdadeira e nua para si

Já era a guarda do universo

Cresceu com os outros grãos.

Já havia aprendido

a germinar uma relação

a se encontrar no silêncio

a transformar na calma

a abrigar os infinitos gemidos

do amor

sem nunca perguntá-lo.

Era ela

Pedaço de mundo

Mulher inteira

Agora com olhar mais certo

fincado nos sonhos

ardente buscadora de si

Andava com um passo

talvez mais leve

um pouco mais certo

mais firme

Em suas mãos tinha a certeza

de poder acalentar o mundo

de ver com os dedos

o que a alma esconde dos olhos

De poder tocar os medos

De poder acariciar os dons.

Mulher inteira

disse dela mesma

E seguiu

(ainda havia muito a fazer).

Mas com uma beleza

delicadamente farta

que só cabe

a uma vida mulher.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

H

Homens.

Homens de mão grande

De caber o mundo

Mãos abertas,

Como a segurar o ar

Homens de peito

Atravessando o espaço

Como quem rompe o mundo

Com força, com avidez

[é preciso ter cuidado com o atropelar das rotinas

Homens de mão grande coçam a cabeça

Porque lhe cabem pensamentos demais

Homens andam de um lado

Para o outro

como uma Grande Cruzada

na sua sala de jantar.

Homens de mão grande

Franzem a testa

Apertam os olhos

E fazem silêncios imensos

Em seus planos de batalhar

De conquistar o invento, o tempo,

o trunfo, o programa da tv.

Homens franzem a testa

Quando só querem carinho

E derrubam seus corpos imensos

Ao nosso lado

Homens não falam

Homens andam

Homens braços

Com seus reservátorios de amor

Somente visitados por nós

[ nos horários em que os portões se abrem

Homens com seus exageros

De robustos sonhos

De encorpadas vozes

De tantas vidas

Em uma vida homem

[suspiramos

Quase sem ver

o tilintar das xícaras

e a rouquidão da manhã.

Homens dormem homens acordam

Barulhentos e idos

Sob o nosso olhar

delicadamente atento.

Um sorriso de uma médica que entra na sala atrasada. Um raio de luz nas suas costas na hora de abrir o carro. O convite para entrar na sala que você queria. O discurso que te distrai. A alegria de quem nem te conhece direito. Quando você precisa, a vida te abraça de muitas formas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

apelo

De repente um feixe de luz entrou com todo peito, encorpado e cheio, como alguém que invade a sala gritando. Aproveitou os seus segundos e cuspiu com uma força tremenda. Era um raio dourado e lambeu de cor o cabelo da moça, que apenas digitava em seu computador mais letras repetidas. O raio fez como um tapete, abriu caminho esperando que alguém se levantasse, que percebesse, que se erguesse da vida e corresse para o mundo afora. Mas a porta foi fechando, o raio foi diminuindo, secando, como um último suspiro. Porque tinha entrado, coitado, pela brecha que encontrou: a porta do elevador.