quinta-feira, 31 de março de 2011

Alguém nasceu na quarta de cinzas.

Palavra nasce de mim boca aberta pro mundo. Assim como um bueiro na rua, arrotando um bocado de ontem pra quem passa recolhido em guarda-chuva. Palavra é minha sina, para não ficar chorando com olho de menino em vitrine. Há muito tempo me separei dela. Deixei-a caída como uma criança esquece seu carrinho de rolimã. Minha palavra quase morreu de frio. Mas eu sou palavra-hora. Sou esse canto sentido do mundo, `as vezes tanto, `as vezes mudo. Sou essa letra que venta, sou um pulsado que cansa, sou de um todo que empurra, que quer existir para além. A palavra em mim apenas dança. Que é o autor senão o palco, que é coitado, senão o refém? Uma palavra me passa, abraço palavra também. Que sejamos uma, prontas, inteiras, entregues, para o sopro que acende o fogo, para o que corta e não se vê. Pedi palavra pro mundo. E ela me veio acontecer. Sejamos o que sempre pela primeira vez.


09/03

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sala sua vida - ao lado do corredor.

E de repente, um peso. Veio de cima aquela mão, com vocação para corpo inteiro, e desabou sobre meus ombros. Assim, sem a menor dúvida, sem vacilar, como um homem-mandado para o seu trabalho. Comprimiu então aquela massa, que até ali era eu, e avançou sem nenhum pudor sobre minhas dores recolhidas, esmagando espaços, fibras e melindres com um polegar trator.

Em um golpe só, agarrou meu braço com força - como certamente costuma fazer com o destino - e puxou-o para baixo, de uma forma que me fez cair por cima das horas, despencando dos pensamentos mais altos e desabando sobre este minuto - o único que existia.

Na verdade, pouco sabia ela das minhas inquietações. Elas as amassava, num movimento frenético. Pouco importava o silêncio, porque para ela o estalo, o estalo é que tinha que ser alto e forte, assombrando a preguiça e a vontade de passar a vida no mesmo lugar. Curioso é que na semana passada, tinha sido completamente diferente. Um rapaz com um olhar oriental tocava a vida com extrema delicadeza, como se soubesse mais do que os outros das suas formas, da sua textura de veludo, da sua fragilidade balançando no ar. Não forçava nada, nem fazia barulho algum. Cheguei a duvidar se alguma coisa estava realmente voltando para o lugar. Mas quem é, quem é que não fecha os olhos e se entrega, quando sente que a vida está lhe levando em calmas mãos? Quando lembra de ser tocado por inteiro por dedos de útero? Praticamente dormi.

Mas ela não, ela era sem medidas. Amassou com toda força a dor que tinha se agarrado à minha coluna, e antes que eu fosse embora disse cuidado com a postura. Se passa muito tempo curvada, um dia você tenta voltar e não consegue mais.

Consenti silenciosa. Já era mesmo hora de erguer o peito.

segunda-feira, 21 de março de 2011


Do que para uns era ela

Uma menininha, um malabarismo

Entre sorrisos e pontas de pés.

Do que para outros, era chama

vivente e errante nos grandes

olhos escuros, gulosos.

Do que para outros ternura.

E para os que mais de perto,

Terremoto.

Mas era pra tantos doçura,

que deles recebia o que

enchia seu canto.

Poucos a viam em silêncio,

o que nada dizia, mas trazia dor.

Mas no que muitos viam, descansava:

Essa coisa escancarada

sem dono, nem página

inquieta, descabelada,

uma carreata de amor.

quarta-feira, 16 de março de 2011

VESTIDA DE FLORES



Acaso você nunca nasceu

com um punhado de flores acoroadas

trepadas feito jabuticabas no pé

bem agarradas no seu tronco


Por acaso você não tem os olhos manchados

de tantas cores das bromélias e girassóis

uma confusão só das tintas todas

enchendo seus dentes e dedos


Por bem nunca aconteceu na sua manhã

do sol mudar-se para sua casa

de passar perninha por perninha pela sua janela

sentar-se em sua cama para uma prosa


e sua ciranda nunca girou girou

e seu corpo nuca teve vontade de ir atrás do pedalinho do menino

e você nunca teve vontade de descer rolando a ladeira

e rolar por ela todas as suas vontades


e suas mãos nunca foram um aplaudir de pé

e seu dia ainda não foi um infinito dia?

e seu cascalho nunca foi todinho vivo

de miudezas brancas e um cheiro de mato?


pois é assim que está me acontecendo agora.


poesia saborética

Poesia saborética do cotidiano

Anote aí sem preconceito algum

3 coxas de frango

uma latinha de atum

3 pacotes de batom

e um pão de alho enfileirado


Anote um sabão normal,

desses de esfregar a mão

e o de tubo

- coisa de gente vaidosa


Tome nota da pasta de dente,

mais conhecida como creme dental,

do refri de todo dia

um suco de uva de qualidade

e frutas que já venham cortadas

homenagem mor à preguiça


Tome conta desse Minas-padrão

homenagem à toda linhagem marital

e um potinho de requeijão


nessa poesia quase cotidiana

nessa riqueza toda de feirinha

a nossa lista em cima da mesa

o nosso amor escrivinhado na cozinha


Coisa de nós dois

tão singela

um parzinho de lingüiça apimentada

ria como for, meu amor

é nossa poesia de segunda-terça-quarta.