Não tem mazela ou doído que possa me ocorrer que uma grávida não me cure. Acontece assim. Eu venho quase me esvaindo em noites de pensamentos, com os olhos já saltados fora da cara, o peito sem muito querer e de repente, grávida. Me posiciono então bem em frente ao seu umbigo. Eu quis dizer à imensidão do seu umbigo. Não há mais mazelas. Aquele silêncio inteiro que ela abriga, me ocupa. Sinto vergonha de falar qualquer coisa para não acordar a doçura do mundo. A grávida me olha com olhos cansados, por levar de um lado a outro o seu trono. Eu me dobro, com cumplicidade. Ela vem, em seu andar cambaleante, com as pernas foras da reta, num sacrifício imenso de viver. Passa com aquele monte de milagre, na graça de uma manhã de domingo, mas eu juro que nem tinha percebido. Passam ela e a manhã, com um ensolarado de cegar os olhos. Esbanjam o hálito fresco das horas, a sintonia entre seus galhos, seus ninhos, seus ruídos, seu escancarado azul. Me atravessam, eu pobre, na calçada, como se fosse a única a não saber. Passam cheias de certeza para terminar de ninar o mundo. A grávida pede licença aos meus pensamentos atribulados. Eles se calam. Ela faz o anúncio de uma chegada breve, seu umbigo quase empurrando a realidade. Eu escuto. Ela segue se balançando e não há mais nada em mim há não ser esse respeito branco. Levou ela até as últimas palavras alheias, os trapos de outrora. Deixou talvez, esse punhado de amor para aplacar meus silêncios.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
Alguém nasceu na quarta de cinzas.
Palavra nasce de mim boca aberta pro mundo. Assim como um bueiro na rua, arrotando um bocado de ontem pra quem passa recolhido em guarda-chuva. Palavra é minha sina, para não ficar chorando com olho de menino em vitrine. Há muito tempo me separei dela. Deixei-a caída como uma criança esquece seu carrinho de rolimã. Minha palavra quase morreu de frio. Mas eu sou palavra-hora. Sou esse canto sentido do mundo, `as vezes tanto, `as vezes mudo. Sou essa letra que venta, sou um pulsado que cansa, sou de um todo que empurra, que quer existir para além. A palavra em mim apenas dança. Que é o autor senão o palco, que é coitado, senão o refém? Uma palavra me passa, abraço palavra também. Que sejamos uma, prontas, inteiras, entregues, para o sopro que acende o fogo, para o que corta e não se vê. Pedi palavra pro mundo. E ela me veio acontecer. Sejamos o que sempre pela primeira vez.
09/03
segunda-feira, 28 de março de 2011
Sala sua vida - ao lado do corredor.
E de repente, um peso. Veio de cima aquela mão, com vocação para corpo inteiro, e desabou sobre meus ombros. Assim, sem a menor dúvida, sem vacilar, como um homem-mandado para o seu trabalho. Comprimiu então aquela massa, que até ali era eu, e avançou sem nenhum pudor sobre minhas dores recolhidas, esmagando espaços, fibras e melindres com um polegar trator.
Em um golpe só, agarrou meu braço com força - como certamente costuma fazer com o destino - e puxou-o para baixo, de uma forma que me fez cair por cima das horas, despencando dos pensamentos mais altos e desabando sobre este minuto - o único que existia.
Na verdade, pouco sabia ela das minhas inquietações. Elas as amassava, num movimento frenético. Pouco importava o silêncio, porque para ela o estalo, o estalo é que tinha que ser alto e forte, assombrando a preguiça e a vontade de passar a vida no mesmo lugar. Curioso é que na semana passada, tinha sido completamente diferente. Um rapaz com um olhar oriental tocava a vida com extrema delicadeza, como se soubesse mais do que os outros das suas formas, da sua textura de veludo, da sua fragilidade balançando no ar. Não forçava nada, nem fazia barulho algum. Cheguei a duvidar se alguma coisa estava realmente voltando para o lugar. Mas quem é, quem é que não fecha os olhos e se entrega, quando sente que a vida está lhe levando em calmas mãos? Quando lembra de ser tocado por inteiro por dedos de útero? Praticamente dormi.
Mas ela não, ela era sem medidas. Amassou com toda força a dor que tinha se agarrado à minha coluna, e antes que eu fosse embora disse cuidado com a postura. Se passa muito tempo curvada, um dia você tenta voltar e não consegue mais.
Consenti silenciosa. Já era mesmo hora de erguer o peito.
segunda-feira, 21 de março de 2011

Do que para uns era ela
Uma menininha, um malabarismo
Entre sorrisos e pontas de pés.
Do que para outros, era chama
vivente e errante nos grandes
olhos escuros, gulosos.
Do que para outros ternura.
E para os que mais de perto,
Terremoto.
Mas era pra tantos doçura,
que deles recebia o que
enchia seu canto.
Poucos a viam em silêncio,
o que nada dizia, mas trazia dor.
Mas no que muitos viam, descansava:
Essa coisa escancarada
sem dono, nem página
inquieta, descabelada,
uma carreata de amor.
quarta-feira, 16 de março de 2011
VESTIDA DE FLORES
Acaso você nunca nasceu
com um punhado de flores acoroadas
trepadas feito jabuticabas no pé
bem agarradas no seu tronco
Por acaso você não tem os olhos manchados
de tantas cores das bromélias e girassóis
uma confusão só das tintas todas
enchendo seus dentes e dedos
Por bem nunca aconteceu na sua manhã
do sol mudar-se para sua casa
de passar perninha por perninha pela sua janela
sentar-se em sua cama para uma prosa
e sua ciranda nunca girou girou
e seu corpo nuca teve vontade de ir atrás do pedalinho do menino
e você nunca teve vontade de descer rolando a ladeira
e rolar por ela todas as suas vontades
e suas mãos nunca foram um aplaudir de pé
e seu dia ainda não foi um infinito dia?
e seu cascalho nunca foi todinho vivo
de miudezas brancas e um cheiro de mato?
pois é assim que está me acontecendo agora.