segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Espumar

Ele nao gosta de fazer muitos alardes

eu faço de tudo uma poesia

já tinha algum tempo

que estávamos enxutos

mas eu ainda estava lá, com certeza estava

sem pressa de sair

conversando com os ruídos espumeiros

Era uma sensação tão leve

que nesse intervalo podia até sentir saudades

mesmo ele estando ali

lendo um livro ao meu lado

Ele falava de alguma coisa

mas os meus ouvidos ainda estavam zunindo

minhas palavras afogavam-se por vontade própria

Estava tudo ali

feito espuma

os braços,

os ditos,

os ritmos

o som que cantei para mim

só para embalar os pensamentos

Foi o segundo mais longo

que já vi nascer

de toda a memória

Um segundo que nunca tinha

pressa de acabar

Mergulhei ali.

Por um tempo incalculável.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Eu sempre achei que ia chegar o dia, o final de semana, de parar pra descansar. De ficar só mesmo ouvindo os passarinhos. De sosssegar nas presenças. Desaparecer do mundo. O dia em que SER bastasse. Achava que nesse dia ia sentir amor. Mas aí acordo e o mundo já se moveu todo de lugar. E o que era sozinhos, já é junto com mais. E o que era um silêncio, já é um alvoroço.

Eu mal arrumo a casa aqui dentro, mudamos de casa. Mal mudamos de conversa, e alguém se muda pra perto de nós. E o dia que era cinza muda para um dia de girassol. Que muda para um dia cinza na quarta. E mudas com plantas na varanda. E por que você nunca muda? E quando penso que tudo enfim é paz, eu mudo de humor. Decidimos então mudar tudo e o que fazemos é mudar de canal. Tiramos o sódio, botamos mais sódio. Abrimos as janelas, nos enchemos e esvaziamos de visitas. Enquanto eu penso sobre ter um plano de vida, já entramos em um projeto. Em mais um curso. Em mais um negócio. E eu querendo entrar só pra dormir. E dizemos bom dia pra compensar a noite. E dizemos boa noite pra ver se o dia aparece melhor. E nos queremos imensamente hoje. E amanhã é tanta coisa já nem sei. Mas vem aí o fim de semana, quem sabe para descansar, para ouvir os passarinhos. Mas não.

O nosso amor vai ser sempre movimento.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

BARRIGA


Não tem mazela ou doído que possa me ocorrer que uma grávida não me cure. Acontece assim. Eu venho quase me esvaindo em noites de pensamentos, com os olhos já saltados fora da cara, o peito sem muito querer e de repente, grávida. Me posiciono então bem em frente ao seu umbigo. Eu quis dizer à imensidão do seu umbigo. Não há mais mazelas. Aquele silêncio inteiro que ela abriga, me ocupa. Sinto vergonha de falar qualquer coisa para não acordar a doçura do mundo. A grávida me olha com olhos cansados, por levar de um lado a outro o seu trono. Eu me dobro, com cumplicidade. Ela vem, em seu andar cambaleante, com as pernas foras da reta, num sacrifício imenso de viver. Passa com aquele monte de milagre, na graça de uma manhã de domingo, mas eu juro que nem tinha percebido. Passam ela e a manhã, com um ensolarado de cegar os olhos. Esbanjam o hálito fresco das horas, a sintonia entre seus galhos, seus ninhos, seus ruídos, seu escancarado azul. Me atravessam, eu pobre, na calçada, como se fosse a única a não saber. Passam cheias de certeza para terminar de ninar o mundo. A grávida pede licença aos meus pensamentos atribulados. Eles se calam. Ela faz o anúncio de uma chegada breve, seu umbigo quase empurrando a realidade. Eu escuto. Ela segue se balançando e não há mais nada em mim há não ser esse respeito branco. Levou ela até as últimas palavras alheias, os trapos de outrora. Deixou talvez, esse punhado de amor para aplacar meus silêncios.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Alguém nasceu na quarta de cinzas.

Palavra nasce de mim boca aberta pro mundo. Assim como um bueiro na rua, arrotando um bocado de ontem pra quem passa recolhido em guarda-chuva. Palavra é minha sina, para não ficar chorando com olho de menino em vitrine. Há muito tempo me separei dela. Deixei-a caída como uma criança esquece seu carrinho de rolimã. Minha palavra quase morreu de frio. Mas eu sou palavra-hora. Sou esse canto sentido do mundo, `as vezes tanto, `as vezes mudo. Sou essa letra que venta, sou um pulsado que cansa, sou de um todo que empurra, que quer existir para além. A palavra em mim apenas dança. Que é o autor senão o palco, que é coitado, senão o refém? Uma palavra me passa, abraço palavra também. Que sejamos uma, prontas, inteiras, entregues, para o sopro que acende o fogo, para o que corta e não se vê. Pedi palavra pro mundo. E ela me veio acontecer. Sejamos o que sempre pela primeira vez.


09/03

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sala sua vida - ao lado do corredor.

E de repente, um peso. Veio de cima aquela mão, com vocação para corpo inteiro, e desabou sobre meus ombros. Assim, sem a menor dúvida, sem vacilar, como um homem-mandado para o seu trabalho. Comprimiu então aquela massa, que até ali era eu, e avançou sem nenhum pudor sobre minhas dores recolhidas, esmagando espaços, fibras e melindres com um polegar trator.

Em um golpe só, agarrou meu braço com força - como certamente costuma fazer com o destino - e puxou-o para baixo, de uma forma que me fez cair por cima das horas, despencando dos pensamentos mais altos e desabando sobre este minuto - o único que existia.

Na verdade, pouco sabia ela das minhas inquietações. Elas as amassava, num movimento frenético. Pouco importava o silêncio, porque para ela o estalo, o estalo é que tinha que ser alto e forte, assombrando a preguiça e a vontade de passar a vida no mesmo lugar. Curioso é que na semana passada, tinha sido completamente diferente. Um rapaz com um olhar oriental tocava a vida com extrema delicadeza, como se soubesse mais do que os outros das suas formas, da sua textura de veludo, da sua fragilidade balançando no ar. Não forçava nada, nem fazia barulho algum. Cheguei a duvidar se alguma coisa estava realmente voltando para o lugar. Mas quem é, quem é que não fecha os olhos e se entrega, quando sente que a vida está lhe levando em calmas mãos? Quando lembra de ser tocado por inteiro por dedos de útero? Praticamente dormi.

Mas ela não, ela era sem medidas. Amassou com toda força a dor que tinha se agarrado à minha coluna, e antes que eu fosse embora disse cuidado com a postura. Se passa muito tempo curvada, um dia você tenta voltar e não consegue mais.

Consenti silenciosa. Já era mesmo hora de erguer o peito.