segunda-feira, 21 de novembro de 2011
de barros
mas por enquanto
arvoreço de amar.
eu tenho urgências de amar
no passe-turno da tarde
meu coração urge e arde
por um bocadinho de conversê
me dei conta que na minha
vida, preciosa mesmo é a simplicidade
é a sensibilidade
cuidar pra tratar de não endurecer.
domingo, 21 de agosto de 2011
A doçura não sabe
encontrar paz em mim
os meus ventos
são como sopros
de lá de longe
só se ouvem ruídos
mas aqui dentro
como mora o embaraço
queria eu poder
ter outro canto
seria bom se todo dia
a gente soubesse viver
mas quando a gente é
e sobretudo
quando é do avesso
a vida é uma corrida
de uma perna só
Me pediram
pra descer do alto
pra endireitar os modos.
Desculpe. Não fiz.
Alma de poeta
se descuida
porque se alimenta
de delirios.
Dá mais trabalho nascer de si mesmo.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Luise quer fazer mais
Contando os dias pra fazer uma
Coisa que eu ainda nem sei o que é
O que eu tenho é isso
Essa coisa amorfa de nome sentimento
O desejo de ocupação
Ocupar a tarde de coisa alguma
Que não é exatamente esta
Horas penso numa imagem
Em um punhado de palavras encaixadas
Dizem que posso chamar de arte
Arte
Seria isso
Essa coisa que falta?
As vezes acho que é propriedade
Um amor próprio
Mas não amor por si
Amor por outra coisa que você ame
Em tempo, só
Paixão sem companhia
Dedicando uma razão de vida
As vezes penso que disso aqui ja tem demais
Letrinhas
Poemas
Falta é fazer
Fazer por mais gente
E tanta gente aí pra começar
Falta colocar a mão na massa
E mão na massa
É arte.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Espumar
Ele nao gosta de fazer muitos alardes
eu faço de tudo uma poesia
já tinha algum tempo
que estávamos enxutos
mas eu ainda estava lá, com certeza estava
sem pressa de sair
conversando com os ruídos espumeiros
Era uma sensação tão leve
que nesse intervalo podia até sentir saudades
mesmo ele estando ali
lendo um livro ao meu lado
Ele falava de alguma coisa
mas os meus ouvidos ainda estavam zunindo
minhas palavras afogavam-se por vontade própria
Estava tudo ali
feito espuma
os braços,
os ditos,
os ritmos
o som que cantei para mim
só para embalar os pensamentos
Foi o segundo mais longo
que já vi nascer
de toda a memória
Um segundo que nunca tinha
pressa de acabar
Mergulhei ali.
Por um tempo incalculável.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Eu sempre achei que ia chegar o dia, o final de semana, de parar pra descansar. De ficar só mesmo ouvindo os passarinhos. De sosssegar nas presenças. Desaparecer do mundo. O dia em que SER bastasse. Achava que nesse dia ia sentir amor. Mas aí acordo e o mundo já se moveu todo de lugar. E o que era sozinhos, já é junto com mais. E o que era um silêncio, já é um alvoroço.
Eu mal arrumo a casa aqui dentro, mudamos de casa. Mal mudamos de conversa, e alguém se muda pra perto de nós. E o dia que era cinza muda para um dia de girassol. Que muda para um dia cinza na quarta. E mudas com plantas na varanda. E por que você nunca muda? E quando penso que tudo enfim é paz, eu mudo de humor. Decidimos então mudar tudo e o que fazemos é mudar de canal. Tiramos o sódio, botamos mais sódio. Abrimos as janelas, nos enchemos e esvaziamos de visitas. Enquanto eu penso sobre ter um plano de vida, já entramos em um projeto. Em mais um curso. Em mais um negócio. E eu querendo entrar só pra dormir. E dizemos bom dia pra compensar a noite. E dizemos boa noite pra ver se o dia aparece melhor. E nos queremos imensamente hoje. E amanhã é tanta coisa já nem sei. Mas vem aí o fim de semana, quem sabe para descansar, para ouvir os passarinhos. Mas não.
O nosso amor vai ser sempre movimento.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
BARRIGA
Não tem mazela ou doído que possa me ocorrer que uma grávida não me cure. Acontece assim. Eu venho quase me esvaindo em noites de pensamentos, com os olhos já saltados fora da cara, o peito sem muito querer e de repente, grávida. Me posiciono então bem em frente ao seu umbigo. Eu quis dizer à imensidão do seu umbigo. Não há mais mazelas. Aquele silêncio inteiro que ela abriga, me ocupa. Sinto vergonha de falar qualquer coisa para não acordar a doçura do mundo. A grávida me olha com olhos cansados, por levar de um lado a outro o seu trono. Eu me dobro, com cumplicidade. Ela vem, em seu andar cambaleante, com as pernas foras da reta, num sacrifício imenso de viver. Passa com aquele monte de milagre, na graça de uma manhã de domingo, mas eu juro que nem tinha percebido. Passam ela e a manhã, com um ensolarado de cegar os olhos. Esbanjam o hálito fresco das horas, a sintonia entre seus galhos, seus ninhos, seus ruídos, seu escancarado azul. Me atravessam, eu pobre, na calçada, como se fosse a única a não saber. Passam cheias de certeza para terminar de ninar o mundo. A grávida pede licença aos meus pensamentos atribulados. Eles se calam. Ela faz o anúncio de uma chegada breve, seu umbigo quase empurrando a realidade. Eu escuto. Ela segue se balançando e não há mais nada em mim há não ser esse respeito branco. Levou ela até as últimas palavras alheias, os trapos de outrora. Deixou talvez, esse punhado de amor para aplacar meus silêncios.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Alguém nasceu na quarta de cinzas.
Palavra nasce de mim boca aberta pro mundo. Assim como um bueiro na rua, arrotando um bocado de ontem pra quem passa recolhido em guarda-chuva. Palavra é minha sina, para não ficar chorando com olho de menino em vitrine. Há muito tempo me separei dela. Deixei-a caída como uma criança esquece seu carrinho de rolimã. Minha palavra quase morreu de frio. Mas eu sou palavra-hora. Sou esse canto sentido do mundo, `as vezes tanto, `as vezes mudo. Sou essa letra que venta, sou um pulsado que cansa, sou de um todo que empurra, que quer existir para além. A palavra em mim apenas dança. Que é o autor senão o palco, que é coitado, senão o refém? Uma palavra me passa, abraço palavra também. Que sejamos uma, prontas, inteiras, entregues, para o sopro que acende o fogo, para o que corta e não se vê. Pedi palavra pro mundo. E ela me veio acontecer. Sejamos o que sempre pela primeira vez.
09/03
segunda-feira, 28 de março de 2011
Sala sua vida - ao lado do corredor.
E de repente, um peso. Veio de cima aquela mão, com vocação para corpo inteiro, e desabou sobre meus ombros. Assim, sem a menor dúvida, sem vacilar, como um homem-mandado para o seu trabalho. Comprimiu então aquela massa, que até ali era eu, e avançou sem nenhum pudor sobre minhas dores recolhidas, esmagando espaços, fibras e melindres com um polegar trator.
Em um golpe só, agarrou meu braço com força - como certamente costuma fazer com o destino - e puxou-o para baixo, de uma forma que me fez cair por cima das horas, despencando dos pensamentos mais altos e desabando sobre este minuto - o único que existia.
Na verdade, pouco sabia ela das minhas inquietações. Elas as amassava, num movimento frenético. Pouco importava o silêncio, porque para ela o estalo, o estalo é que tinha que ser alto e forte, assombrando a preguiça e a vontade de passar a vida no mesmo lugar. Curioso é que na semana passada, tinha sido completamente diferente. Um rapaz com um olhar oriental tocava a vida com extrema delicadeza, como se soubesse mais do que os outros das suas formas, da sua textura de veludo, da sua fragilidade balançando no ar. Não forçava nada, nem fazia barulho algum. Cheguei a duvidar se alguma coisa estava realmente voltando para o lugar. Mas quem é, quem é que não fecha os olhos e se entrega, quando sente que a vida está lhe levando em calmas mãos? Quando lembra de ser tocado por inteiro por dedos de útero? Praticamente dormi.
Mas ela não, ela era sem medidas. Amassou com toda força a dor que tinha se agarrado à minha coluna, e antes que eu fosse embora disse cuidado com a postura. Se passa muito tempo curvada, um dia você tenta voltar e não consegue mais.
Consenti silenciosa. Já era mesmo hora de erguer o peito.
segunda-feira, 21 de março de 2011

Do que para uns era ela
Uma menininha, um malabarismo
Entre sorrisos e pontas de pés.
Do que para outros, era chama
vivente e errante nos grandes
olhos escuros, gulosos.
Do que para outros ternura.
E para os que mais de perto,
Terremoto.
Mas era pra tantos doçura,
que deles recebia o que
enchia seu canto.
Poucos a viam em silêncio,
o que nada dizia, mas trazia dor.
Mas no que muitos viam, descansava:
Essa coisa escancarada
sem dono, nem página
inquieta, descabelada,
uma carreata de amor.
quarta-feira, 16 de março de 2011
VESTIDA DE FLORES
Acaso você nunca nasceu
com um punhado de flores acoroadas
trepadas feito jabuticabas no pé
bem agarradas no seu tronco
Por acaso você não tem os olhos manchados
de tantas cores das bromélias e girassóis
uma confusão só das tintas todas
enchendo seus dentes e dedos
Por bem nunca aconteceu na sua manhã
do sol mudar-se para sua casa
de passar perninha por perninha pela sua janela
sentar-se em sua cama para uma prosa
e sua ciranda nunca girou girou
e seu corpo nuca teve vontade de ir atrás do pedalinho do menino
e você nunca teve vontade de descer rolando a ladeira
e rolar por ela todas as suas vontades
e suas mãos nunca foram um aplaudir de pé
e seu dia ainda não foi um infinito dia?
e seu cascalho nunca foi todinho vivo
de miudezas brancas e um cheiro de mato?
pois é assim que está me acontecendo agora.
poesia saborética
Poesia saborética do cotidiano
Anote aí sem preconceito algum
3 coxas de frango
uma latinha de atum
3 pacotes de batom
e um pão de alho enfileirado
Anote um sabão normal,
desses de esfregar a mão
e o de tubo
- coisa de gente vaidosa
Tome nota da pasta de dente,
mais conhecida como creme dental,
do refri de todo dia
um suco de uva de qualidade
e frutas que já venham cortadas
homenagem mor à preguiça
Tome conta desse Minas-padrão
homenagem à toda linhagem marital
e um potinho de requeijão
nessa poesia quase cotidiana
nessa riqueza toda de feirinha
a nossa lista em cima da mesa
o nosso amor escrivinhado na cozinha
Coisa de nós dois
tão singela
um parzinho de lingüiça apimentada
ria como for, meu amor
é nossa poesia de segunda-terça-quarta.
terça-feira, 15 de março de 2011
Mineiríssimo
Do que ela me disse já na porta de casa: é que mineiro gosta de cumprimentar dando abraço. Mas o caso é que é mesmo.
Mineiro gosta de abraçar a vida. Abraçar sem preguiça quem chega em casa. Abraçar suas vontades, sua felicidade, com um punhado de prosa, com mesa pronta. Mineiro só é miudinho no jeito de falar. De resto, é um escancarado coração pro mundo. De não caber de tanta gente que adota pelo caminho, fazendo de cada vida um bocadinho da sua. É um sorriso portas-abertas, do nascer do dia ao cansar do sol. Mas não se engane pensando que nessa colcha de lã, não existe os nós fora de linha, o desgoverno da agulha. Que a chama que moldou a caçarola, não ardeu na pele. Mineiro conta suas contas. Remenda suas dores. Silencia seus cantos. E amanhece inteiro pra fazer o melhor que pode de cada dia, com o mesmo gosto com que faz os seus doces. Sábio quem recria a vida, e ainda acerta pôr um sopro de canela. Mineiro acredita que a vida é "bôua", e deseja tanto isso pra quem vem. Mas a vida só é boa porque tem gente assim, que põe mais amor em tudo que faz. Que entrega os braços para o trabalho, e o pensamento pro alto, pra não perder o trem.
Da próxima vez que um mineiro te convidar, não perca a oportunidade. Abrace e seja mineirim também.
segunda-feira, 14 de março de 2011
VEM AÍ

Continuo feliz-feliz com o aniversário que está vindo. Eu acho que é isso: eu nino meu aniversário, como um bebê que nasce, e que tivesse mesmo que ser feliz. Eu preparo seu quarto, arrumo suas cortinas na janela, ponho as cores amarelas, azuis , brancas, em cada cantinho. E encho de perfume esse tempo de vida, esse espaço-quarto para tantos sonhos, numa mistura de agradecimento e pré-abraço. Recebo com o cheiro de mar. Recebo com os olhos brilhando. Toda vez que ele vem chegando, sinto. Mas não me sinto apenas, aquela que vai soprar a velinha, mas sinto todos. Sinto todos com um sorriso imenso. Aqueles que fazem meu coração pular, que já dividiram comigo dias dos mais gostosos, momentos que parecem cenas de filmes na minha cabeça. E como elas vêm e vão, como pequenos curtas, me fazendo sorrir mais e mais. Sinto todas. E quero por perto. Para ouvir, para falar, para abraçar dessa forma diferente, com a vontade que viaja e atravessa. É dia meu, é dia nosso, é dia deles. É uma festa de um tempo novo que quer nascer. Vamos colocar nossos chapéis de novos pensamentos na cabeça. Vamos pegar nossa língua de sogra de novas palavras, soltas e livres, indo e escapulindo dos lábios. Vamos petiscar nossos momentos-doces, achocolatas manhãs, tardes de silêncio e paz. Vamos encher as nossas palmas para aplaudir a vida e pedir por ainda mais amor, como quem enche o teatro e o peito. É uma festa com você. É uma festa de todo dia, do dia que continua, com um entusiasmo recém-nascido. Venha que vamos.
Feliz dia que inaugura tempo novo.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Nem parece verão em sampa. Acabei de chegar e o friozinho matinal já nos encontra, naqueles velhos olhos brancos da cidade. De punjante e urgente, só o verde. Há um derramado de verde por toda parte, molhado e vivo, como se fosse uma primavera para aquela cor. Caminho sob o hálito das flores, o macio tapete de grama, a permissão dos insetos e o babuciar de um passarinho, que como eu, também aprendeu a viver tranquilamente ali – apesar da estradinha de asfalto. Respiro os ares da cidade. Da minha cidade. Seu bocadinho de chão, seu silêncio cheio de liberdade para um livro, um pensamento. É tanta calma nessa cidade sempre nova, mesmo que todos saibam de suas urgências. Quase danço sob o frio e as histórias que estou ouvindo. Podia até sentir saudades do sol. Mas não, eu entendo, é quase como uma compaixão, deixá-la ser. Essa chuva..ah, essa chuva é só o jeito de amar de sampa.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
FAZ NOVO
domingo, 24 de outubro de 2010
Ele, o amor.
Amor é o que existe de mais legal entre duas pessoas e que existe além até das duas pessoas, vivendo na cama, no caminho para a cozinha, na bagunça da sala, no cheiro da almofada e delicadezas do supermercado. Amor é um bocado. Se morasse na barriga, não caberia na boca de sopro do estômago, nem nos metros enrolados de intestino - o que talvez explique uma segunda locação. Amor parece mais um sorriso em forma de enzima, que espalha e adormece, que espalha e amolece, que espalha e encanta, e ri e junta pele. Amor é um cruzamento de dedos além-idade, anti-relógio, anti-espaço e anti-assento. É um olhar que está no outro, mesmo que pálpebras fechadas meia-noite. Quem tem um amor, na verdade, já é preenchido, como de algo ou outrem, como quem finalmente carrega o sol por dentro da blusa. Ufa! Amor é de fato uma demasia. Mas uma verdade tão de palma, tão de gente, que pele molhado seda ternura quente amor. Amor pousada mão sobre mim. Sorrio amor.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
eu decidi
sem muita pompa
conversa ou alarde
assim como quem abre
a janela
desperta no meio da tarde
que viveria esse dia
em soltura e em verso
concentrada em encher o peito
em manter o espírito aberto
Não queria mais das horas
nem do futuro, nem do amanhã
queria meu café de tarde
meu cheiro no pescoço
e cuidar do desgosto do dia
quando me aparecesse o endosso
por enquanto nada mais
já é muito o que a vida traz
quem pensa mais do que sente
vive para si, quase ausente
da fartura do mundo
e eu, ao contrario, distraído,
vivo a parte que me cabe
vivo gozando de estar vivo
chamando esse cansaço gostoso
e essa entrega total
de minha paz primeira
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
M
Mulher
Em pé.
Mas em seu olhar
há algo de longo
há algo de seguro
há algo de seu
muito seu
Eis o que havia conquistado
Soube formar-se no próprio ventre
agora era ela
Uma Mulher
Em sua fecundidade
de dons.
Tão plena quanto inteira
os pés nus sobre o tapete
A pele reluzindo com os olhos
Verdadeira e nua para si
Já era a guarda do universo
Cresceu com os outros grãos.
Já havia aprendido
a germinar uma relação
a se encontrar no silêncio
a transformar na calma
a abrigar os infinitos gemidos
do amor
sem nunca perguntá-lo.
Era ela
Pedaço de mundo
Mulher inteira
Agora com olhar mais certo
fincado nos sonhos
ardente buscadora de si
Andava com um passo
talvez mais leve
um pouco mais certo
mais firme
Em suas mãos tinha a certeza
de poder acalentar o mundo
de ver com os dedos
o que a alma esconde dos olhos
De poder tocar os medos
De poder acariciar os dons.
Mulher inteira
disse dela mesma
E seguiu
(ainda havia muito a fazer).
Mas com uma beleza
delicadamente farta
que só cabe
a uma vida mulher.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
H
Homens.
Homens de mão grande
De caber o mundo
Mãos abertas,
Como a segurar o ar
Homens de peito
Atravessando o espaço
Como quem rompe o mundo
Com força, com avidez
[é preciso ter cuidado com o atropelar das rotinas
Homens de mão grande coçam a cabeça
Porque lhe cabem pensamentos demais
Homens andam de um lado
Para o outro
como uma Grande Cruzada
na sua sala de jantar.
Homens de mão grande
Franzem a testa
Apertam os olhos
E fazem silêncios imensos
Em seus planos de batalhar
De conquistar o invento, o tempo,
o trunfo, o programa da tv.
Homens franzem a testa
Quando só querem carinho
E derrubam seus corpos imensos
Ao nosso lado
Homens não falam
Homens andam
Homens braços
Com seus reservátorios de amor
Somente visitados por nós
[ nos horários em que os portões se abrem
Homens com seus exageros
De robustos sonhos
De encorpadas vozes
De tantas vidas
Em uma vida homem
[suspiramos
Quase sem ver
o tilintar das xícaras
e a rouquidão da manhã.
Homens dormem homens acordam
Barulhentos e idos
Sob o nosso olhar
delicadamente atento.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
apelo
De repente um feixe de luz entrou com todo peito, encorpado e cheio, como alguém que invade a sala gritando. Aproveitou os seus segundos e cuspiu com uma força tremenda. Era um raio dourado e lambeu de cor o cabelo da moça, que apenas digitava em seu computador mais letras repetidas. O raio fez como um tapete, abriu caminho esperando que alguém se levantasse, que percebesse, que se erguesse da vida e corresse para o mundo afora. Mas a porta foi fechando, o raio foi diminuindo, secando, como um último suspiro. Porque tinha entrado, coitado, pela brecha que encontrou: a porta do elevador.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O que movimenta meu amor.
O que movimenta meu amor é até o tiquinho de movimento: aquele olhinho apertado abrindo e vendo que o outro está ali na cama. Aquele segundo-infinito, enquanto sua cabeça encontra um peito-travesseiro: ele distraído com o tagarelar da televisão e eu fechadinha em flor, encolhida naquele mundo de amor particular. O que movimenta nós dois é a bossa, é até o friozinho da manhã de domingo. É a meia arrastando pela casa em direção à invenção do almoço na cozinha. É o riso, totalmente nosso, tão sincero quanto ligeiro. É o som do violão na cama, enquanto ele canta e recanta as histórias, e eu me embolo em lembranças e lençóis. É o abraço que quanto mais aperta, mais pede pra ser apertado, até que alguém enjoe e reivindique um espacinho. É o ritmo apressado dele, é a perguntação dela, são as tecnologias dele, as filosofias dela… Que no final do dia, que no passar dos anos, sempre se encontram no encontro entre os dedos, nas mãos balançando…. em pleno movimento.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
branco banco
Aquele banquinho encostado guardava uma centena de tardes com gosto de conversas boas. Ele era inteiro branco, por isso o próprio tempo gostava de se assentar ali. E quando a gente sentava, era como se descolasse da vida e já se tornasse bem velhinho, em apenas quatorze segundos. E então para nós o gostoso se tornava ver a vida dos outros passar, com seus cachorros de mão, com suas preguiças de expediente, seus sapatos chutando vento, suas fabricações de família. E de repente a nossa própria vida passa então mansa pela calçada, acompanhada pelo nosso olhar, como um suspiro longo e grato... Uma breve pausa para o alívio de viver - que fica ainda melhor com o friozinho da tarde. É o minuto em que os sonhos param um pouco de pedir e as pernas de correr. Levantamos. Recuperamos então nossas dores nas costas, nosso dia pelo meio, nossas obrigações civis e as mãos nos bolsos. Talvez até a própria idade, uns dez passos depois. E seguimos, escrevendo a própria história, em passos um pouco mais lentos, em linhas um pouco mais longas.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Verbo novo
Eu fundei um verbo novo: Terquê. E mal se caminha no mundo, o verbo começa a se conjugar sozinho. E você já vai terquê gostar. E você já vai terquê se abrir. E terquê amar a azulância das coisas. E terquê tapar os buracos. E o terquê agora, que é o mais bruto de todos. Que engraçado isso. Quem me prometeu o mundo? Quem me disse que haveria outra imensidão igual a mim? Quem não me ensinou que não existe nada no mundo igual e que tudo que existe é pura diferença. (E que há tanta beleza nisso). Agora tenhoquê. Observar, Aprender essa lingua mole que a vida fala. Aprender a falta de acordos e contratos com o outro. Aprender a não querer tanto o mesmo abraço, o mesmo riso, o mesmo encontro, o mesmo modo viveris, mesmo quando ele é tão bom. É muito Bom ter pensamentos parecidos. Mas o mundo nunca soube o que é terquê. Terquê não foi inventado pela natureza. Terquê não existe na gente, porque até a gente prefere escolher a cada dia e renegociar o que quer no pós-dia. A a gente só aceita terquê quando a causa é muito grande. Terquê fazer o exame. De resto a vida não é. Não vai. Não está feita. E nessa malemolência, esse apenas fluido do mundo, vamos nos deixando conhecer mutantes. Falantes, Inventantes de nós. Vamos conhecendo vontades. Verdades. Imprevistos que constroem. Vamos conhecendo o inaceitável, o incalculável, o susto: o outro vivendo. Com o modo dele, seus motivos alheios. Tão espacado desse verbo. A vida é desse não garantido imenso. E não nos faz maiores pedidos, mesmo que sua agenda e o seu trabalho lhe digam o contrário. Conjugue o verbo certo. A vida só pede pra ser.
Mas essas minhas linhas vão para as sinceras. A admiração discreta, entre ombros, mãos, papéis, boca torta. Porque por trás do Sim e Não altivos, que andam pela sala com os peitos inflados e um chapéu robusto, existe o parar pra assistir. Parar pra ver o outro ser, existir. A vida seria mais gostosa se a gente parasse para ver. Sentasse na frente de alguém, que já viveu um bocado, que já sabe um bocado ou que não sabe nada direito mas vive como ninguém, só para silenciar. Minha gente, a vida é um espetáculo. Inclusive a vida do outro, inteira como ela é. Ache você que não concorda. Ache você ruim o seu modo ou que é falível. Mas como um filme, que todo mundo viu, pare pra assistir. Sem apego, sem sentimento, sem ser você por um instante. Exerça o direito à curiosidade, ao novo. De algum modo, você também vai ter vontade de aplaudir. E de entrar, nem que seja um pouquinho, naquela secundagem, naquele monte de rugas na pele contando um monte de vidas em uma só. Mas quando você entrar será breve. E discreto. E transparente como um penado. Porque enfim terá descoberto o valor do respeito.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Horóscopo
A verdade é que meu horóscopo nunca vai chegar perto de adivinhar o que aconteceu ontem a noite. Nem será capaz de me dar conselho algum, visto que não toma um bom vinho comigo. Ele pode até conhecer do passar dos astros. Mas do passar das horas, das histórias costuradinhas no tempo e desamarradas no dia, entendo eu. É certo que não é muito fácil interpretar minhas estações. (Mas crescer é também isso: ter paciência com os próprios mistérios. Viver apesar do calo, apesar da dúvida, apesar do momento. )De forma que fiquem os planetas com suas conjunções e conjugações. Com seus futuros e suas explicações para o que nunca precisou de uma. E aqui, onde se pode ser mais do que um asteróide, nós vamos fazendo a vida andar.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
pedido
Meu bem não desperdice
Amor feito gotejo de vela
Carinho escapulido
Tanta palavra bem feita, bem decorada
Espantada pela porta
Meu bem é cedo
Meu bem é junho
É tempo que tudo caminha
Deixe correr os zumbidos
Os pedidos no pé do ouvido
Meu bem, quem precisa saber?
O que a noite nos diz
No embaraçado dos braços
É o que tem de ser
terça-feira, 20 de julho de 2010
eles eu
Para os de sempre, conversa velha, cheiro de travesseiro, ronco no ouvido, camisa de bloco de carnaval dentro de casa. Para os de muito – muita risada, abraços repetidos, muito molho no cachorro quente e muita pressa de viver. Para os de agora – felizes, bonitos, no ineditismo, nas portas abertas. Para os de fazer presepada no almoço. Para os de buteco. Os de camarão com pão. Para os que sempre estão lá, com as palavras enfileiradas, com os ombros mansos. Para os que conheci ontem. Para os que nunca paro de conhecer.
Amo vocês. É esse infinito que vem dos amigos que me faz completa.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Ares frescos
Azul derramado no teto da vida
Entre tantas histórias e caracóis do tempo,
Acende sol dentro de nós.
Presente da vida, amigas encontradas
Sorrindo dias comuns, irradiando gente
Há um cheiro de mar presente
- Mesmo que distante
(preso nos cabelos, bagunçando idéias)
Talvez por ser brisa fresca
Essas nossas tardes juntas
Sopro para alma, em qualquer ocasião.
Enquanto não vejo a praia
Me encho do sal da alegria
Em conversas esvoaçadas,
indo e voltando
todos os dias.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Passeado
Amor então era aquilo
Um transpassado de mãos
Uma corrente delgada e escorregadia de carinhos
Uma vizinhança de janelas abertas
O caminho de pesponto que faz um passarinho
De um em um
De tela em tela
Canto a canto
Amor então era isso
O que vai e vem entre os olhos
O que passa e se espalha ao sabor do vento
Amor é polen
É experimento
Linguagem danada de tagarela
Que fala sem ninguem ver
É coisa de dar alma cheia
Amor passeia
Passageiro no tempo
Amor é o abraço dado
De incontaveis mundos.
Dia Claro
Porque era uma segunda diferente
Branca, aberta
Feito boca de janela
Era uma segunda dizente de sim
De toda alegria infame
Que cabe entre mãos e pontas de dedos
Era o meu mundo amanhecendo numa segunda
Me convidando para um sorriso solto
Para um destino leve
Era braço aberto de mundo
Era peito aberto janela
Era ela
Era ela
Gostando mais
Da vida dela.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A linguagem por debaixo dos lençóis
De repente, quente. Tecido macio diferente, cobrindo tudo como nunca pensou um fio de algodão. E debaixo de montanhas, de listras, pespontos, felpos, mãos. Encontro entre os dedos, saudosos, depois de tanta noite, tanta procura. Esquecidos lá embaixo, se falam: pés. Avisam consideravelmente que naquele silêncio todo estão ali, um para o outro. Caprichos de sonhos, isolados, agitados, e no entanto: encosto. Um mundo de amor se recosta suavemente sobre sua pele descoberta. Segue sono. Segue noite. Turva. Contínua. INFINITA. Corpos em tempos, espaços distintos, e o abraço dado num bafo de respiração. Mas de repente, no meio das horas, em um cisco de realidade, um estalo de suspiro, novamente eles, em pontas de dedos, em olhos fechados: mãos.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Tempo relativo
Em uma coisa eu sinto pela nova geração. Vai demorar um pouco para eles entenderem o que é a Espera. Com essa agitada vida, cheias de respostas instantâneas, no msn, no facebook, no blog, no google, vira uma realidade muito distante essa coisa de aprender a escutar o tempo da vida. E a caminhar no seu ritmo. As coisas não acontecem tão rápido quanto chega um email. Os sentimentos não se transformam tão rápido quanto se atualiza uma home page. A vida tem seu ritmo e é preciso tanto saber escutá-la para viver em paz, para sobreviver. Quero que meus filhos e também meus netos descubram que a espera existe. E descubram o valor de ter paciência, serenidade, calma e confiança em todo tempo que viverem. É preciso saber se manter em pé e tranquilo, por um dia, por esse dia. Assim como é preciso entender que um tempo difícil leva o tempo que é necessário, e não é contado em horas, nem dias. Mas todos eles se concluem no momento certo, e cabe a nós estarmos prontos, internamente, para tirarmos o melhor, para vivermos com o melhor dos sentimentos. As melhores e mais duradouras coisas da vida são feitas com a paciência com que é tecida uma teia de aranha, eu penso. Quero que meus filhos , assim como eu, tenham a calma que é preciso para escutar e para receber o amor, assim como ele é. Para errar e aprender, sem se cobrar com a pressa, mas sendo amigo da observação. Quero a serenidade que é preciso para descobrir como a vida conserta as coisas, como tudo pode se transformar. Quero que tenham felicidade para levar à frente os seus sonhos e confiança silenciosa na hora da dor. Precisamos escolher os sentimentos que nos acompanham para cada situação, é como decidimos viver. Mas de tudo isso, o mais importante: entender que as emoções aflitas desse momento de nada tem a ver com a sábia e aveludada voz da vida. Muito mais o íntimo do espírito, se não tiver sendo pertubardo pelas janelas do ichat ou do msn, que vai ouvir e entender o que está sendo pedido. É preciso descobrir, nessa geração tão agitada, que tempo verdadeiro tem a vida e a voz da divindade em cada um de nós.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Um pouquinho de humanidade no dia a dia
Somos treinados para a linha de batalha. Somos. Estamos todo o tempo empenhados, dedicados, forticados para o que vier. É fato.
Mas nessa luta diária, nessa corrida pelos objetivos que atropela as horas, esquecemos das sutilezas que fazem o nosso dia um pouco mais HUMANO.
Correr para cumprir as metas é importante. Mas parar um minuto para dar um abraço, para conversar com calma, não faz tanta diferença na agenda. Mas faz para a alma.
Queremos sempre resultados, resultados, resultados. Mas de que adianta o esforço, se quando tudo dá certo não sabemos sorrir, comemorar? Não nos damos o direito de respirar em paz, de abrir as janelas do peito. Sabemos ser bons profissionais. Mas sabemos ser gente?
São essas pequenas coisas que permeiam o nosso dia, que fazem a vida deixar de ser um CRONOGRAMA para ser de verdade. Com sentimento de verdade. Com amor de verdade. Vale deixar o relógio atrasar um dia sim. Vale roubar no jogo, jogar os papéis para o alto de vez em quando.
Sem isso, a vida fica vazia. Fica tão inspiradora quanto uma pauta de escritório.
Vamos lembrar de ser mais humanos. Por trás de qualquer resultado, tem o sonho, tem o suor de alguém. Por trás da carinha cansada atravessando a porta, tem sempre alguém cheio de amor, cheio de vida para dividir. E com uma vontade de fazer um dia seguinte simplesmente mais feliz.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Oceano de mim
É, eu não sou daqui.
Eu sou do mar
Meu verbo é derramar
Até encobertar os grãos secos
de vida pouca, de pouco amor
Eu tenho o tamanho do abraço
Da linha azul no horizonte
É verdade, sou mansa
(como o sonho bom)
De envolver você em um balanço morno
Mas também sou tanta
Tenho o incalculável mistério do mar
Desenhada no brilho da beira
E com muita história além da superfície
Sou um convite, sou água
Queira beber, por favor
Se contém o sal,
não é para secar a garganta
Mas para encher de vida
Os cantos onde o azul se arrasta
Sim, seu moço, posso não ser certa
- qual é a agua que é acomodada?
E meu ruído horas incomoda.
Mas qual a onda que se traduz calada?
Até quando a brisa é mansa
Ouve-se o canto da boca encharcada
Do alto de uma sacada…
Venha quem quiser sentir
Pule quem quiser provar!
Tenho o número de encantos
Salgado, molhado, imenso, espalhado
Que alcança o mar!
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Conjugando Sol
Sol não é do verbo ter
Não tem sol lá fora da janela de pátina.
Nem do verbo abrir.
Abriu demasiado sol enquanto eu dormi.
Sol é do verbo ser
É sol.
Sou sol.
Porque sol acontece
Como acontece a mudança dentro da alma
Impregnando todos os lugares
Onde haja ou não haja teto
Invadindo peitos, pensamentos, pedidos e mãos dadas
Ninguém tem sol de meio-dia
Todo mundo é sol
Como é gente, como é graça
Como somos do tamanho exato do céu
No nosso bafo quente de alegria
Misturados ao ar
Na grandeza do que sentimos.
Sol não se acha na seca rosa dos ventos
Sol não acordou na direção leste
Ou se despediu na oeste, querendo ir pro sul
Lugar de sol nascer é na alma
E é lá que se conjuga o verbo ser
Nem transitivo, nem transitando
Simplesmente transformando
Essa nossa vontade de iluminar,
de aquecer, de abrir
Quando, coincidentemente,
nos acontece a luz.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
o bonito do que vi
Quando eu estou passando por um momento delicado, costumo ouvir a opinião de muita gente. E o mais enriquecedor até o momento é ver como as pessoas vivem verdades diferentes. Como encontraram soluções próprias para lidarem com suas dores e dificuldades, das quais a vida não poupou ninguém. Há quem acredite nos sonhos, nos desejos mais utópicos do coração, e quem só acredite na vontade, nesta exata hora do dia, com olhos escancarados. Há os crentes e também os descrentes, chegando a me impressionar com suas razões. Há os que ensinam a serenidade, e nesses me apego, tentando pela primeira vez, ser uma pessoa melhor, da qual me orgulhe na vida. A calma que eles transmitem é quase uma confiança, uma nuvem que nos envolve no passar dos dias. E tem os que me ensinam a felicidade. Nunca me esqueço da frase: “permita-se o sofrimento, que é mesmo para ser vivivo. Mas não deixe que nada, nem ninguem, atrapalhe sua busca pela felicidade”.
-Paro por um Segundo para pensar: o que será que eu ensino a eles? Do que será que fala minha alma, com os atos, com o olhar?
É bom, nesse tempo delicado, descobrir do que as pessoas são feitas. Cada uma delas. O segredo que sustenta o seu sorriso, que muitas vezes foi constrúido com lágrimas, o seu jeito misterioso, a sua ignorância no que nem sabe que lhe falta, as suas receitas para o viver desse momento. Como é especial entrar nesse universo tão guardado por cada um. Me sinto privilegiada pelos corredores e portinhas que encontrei abertos.
Algumas vezes me assustei, muitas me surpreendi, mas pude ver como são diferentes as realidades. Como a vida para cada um é única, embora todos tenham o mesmo amor e vontade de lhe ajudar a vivê-la. Gosto de ver as pessoas doando suas receitas, me faz perto. De todas as coisas, essa foi a mais rica para mim, até este dia: descobrir como a verdade não tem dono. E se faz nova na alma de cada um.
