terça-feira, 24 de novembro de 2009

Balançado


Eu quero uma casa na praia. Com direito a dias de verão de muito sol e felicidade. Quero ver os risos aparecerem como o sol que entra pelas frestas do portão, contagiando todo o ambiente. Quero ver minha filha encantada com a sensação mágica e tão simples de ter seus pequenos pés sobre a areia grossa, mergulhadas na água fria do mar. Quero que a paz corra pelos cantos da minha casa, da minha vida, como passeia uma brisa fresca, levantando folhas e suspiros. E que seja tão doce e tão prazeroso ouvir as conversas e risos de minha família, que se tenha a impressão de poder escutar a felicidade, como quem ouve a um canto de passarinho, nessa suave normalidade. Quero agradecer a Deus pelo amor que encontrei e que tenho, a cada cortina que se abre apertando nossos olhos, a cada silêncio calmo da tarde, em cada calor entre as mãos dadas e cúmplices, na certeza do encontro dos olhares. Quero viver dessa verdade imensa , que alimenta a alma e o espírito, com todos os meus por um tempo farto e incalculável.


E a resposta do sr. amor :


Eu também quero uma casa na praia. Mas com a ar condicionado, futton e ofurô. Conexão banda larga, tv de plasma, Apple TV e macbook. Uma plantação de iPhone, para colher pelo menos 10 gigas de aplicativos por dia. Uma barraca de praia confortável, com ombrellone hidramático, cadeira com ajuste de coluna e um bom reader para baixar um bom livro. Uma distância segura pra vigiar minha pequena de longe, mas que me mantenha longe das urticárias causadas pelo calor. Um garçom solícito e um freezer que funcione. Se tiver conexão wifi, um Skype para me conectar à minha família. Agora se minha filha enfia a mão na areia, grito logo: não vai mais mexer no computador do papai!

te amo!




segunda-feira, 23 de novembro de 2009

INFINITOS

Existem dias que não acabam. Que existem e existem e existem, independentes e alegres, além das segundas-feiras. Existem dias que ecoam, em risos e chuvas, em suaves abraços, em pedidos de tanto mais. Não são dias com hora marcada para se despedir, pós o tic-tac da zero hora. Ao contrário: são dias com o dom de fabricar, de trazer para vida mais risadas, mais alegria, mais dias de mesma natureza e uma força que faz mais de nós. São dias-mães. Que parem felicidade. É só fechar os olhos, para você também lembrar de um dia que continua existindo até hoje. E que causa uma cócega de alma só de lembrar. Que sorte, que fortuna estar vivendo um dia desses. Que de tão inesgotáveis, não se deixam capturar em palavras, nem mesmo por uma justificada paixão pela poesia. Deixo então que corram, para sempre, para tanto. Para muito além das linhas.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do dia que me amei assim.


Amanhecida de mim

Essa natureza tempestade

Esse vento incorrigível

Força de tais


Pessoa descabida

Não cabe nos limites da roupa

Da boa educação

Pessoa que gira os acordes da vida

Que joga os pratos no chão!


Ando pedindo desculpa

Por derrubar os talheres,

enfeites, com tetos, com mãos

Um sentir tão desastrado

Que vai causando confusão.

(e põe o teu amor sob a minha condição?)


Sou dessa suavidade violenta

Desse amor repuxo de turbina

Mar revolto, quanta preocupação


E eu só queria o silêncio do dia…


Mas minha alma indomada

Não aceita sugestão!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

(Para pôr um título)

Se eu soltar a língua,

Se eu soltar o verbo,

Junte a letra solta

Forme um só verso


Se eu errar no tom

Se eu quebrar a métrica

Faça um som do bom

Sopre a nota certa


Pois apesar dos erros

De cálculo e de régua

É seu amor que eu canto

É pra você minha festa


É pelo zumbido bom

Que vem do fundo do peito

E pega a gente de jeito

Até no silêncio do dia.


Nosso amor é assim. Vezes dá samba. Vezes dá poesia.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Confissões jardinais

Fico feliz porque agora você já me viu derramada, sem hastes nem contornos que pudessem me fazer pessoa sólida. Fico feliz porque alguém já escutou meu choro – a força que vem da minha dor, transformada em música, ensurdecendo todas as razões comuns. Fico feliz porque a flor já tirou a sua roupa: ja está desnuda, borrada, enxuta. Mas ainda com seu amarelo de flor. Fico feliz porque você sabe que não é todo dia que meu dia gira. Que o sol aparece e enlarguece meu sorriso de gente. Fico aliviada por você ter visto minhas cores e descolores, meus atravessados e recortes. Saímos da superfície e remexemos a terra, e só em terreno mexido é que temos a chance de enraizar amor. Estou escancarada, revelada, contra toda tentativa de me emborrachar em uma máscara de carnaval. Agora você conhece a dor. Agora você conhece a flor. Agora você conhece Eu. (suspiro). E por incrível que pareça, é bom me ver viver como sou.  Afinal, assim como você, eu também estou aprendendo a me amar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

5 minutos antes de dormir

Meu amor, mulher não dorme. Mulher experimenta um amor tão suave que chega a fechar os olhos. Mulher não se cobre e espera a hora de dormir. Mulher se recolhe entre braços, para acreditar uma vez que o mundo é mais seguro. Mulher não desacorda apenas. Sonha muito antes de começar a dormir. Mulher não diz boa noite e se apressa. Olha nos olhos com calma, para ter certeza de quem escolheu, para se ver em outro. Meu bem, mulher não forra a cama e se prepara para descansar. Mulher descansa é sentindo, no calor de um abraço, que ela pode se derramar, porque tem quem a proteja.

Mulher não dorme. Mulher se sente amada enquanto finge dormir.

Pálida cidade

Chovia uma chuva fina branca, um descolorante de cidade. Respirava frio, numa aflição do passar das horas, num esquecido entre os carros. Nem parecia sexta. Nem parecia dia nenhum. Nem sabia ao menos onde estava eu, se não fosse pelo agudo insistente no peito. Às vezes a chuva é sua cúmplice – você sabe que dentro de você alguma coisa também quer derramar. E se não for para mostrar o riso, melhor mesmo que chova, para escondê-lo entre os casacos. Não deu tempo de reclamar. Nem de reparar no sinal que acabou de abrir. Olhei para cima e vi na janela, na brecha da Cortina, uma mulher que segurava um bebê e balançava, balançava, olhando para ele. Segundo parado. Pedido de pausa da vida. O mundo parecia cinza, mas naquele momento era branco, cabia entre os braços e cheirava a carinho. A moça somente embalava seu filho. Em um ritmo fora do mundo, em um silêncio longe dali. Mas com um amor que atravessava a janela e dava abrigo a quem estava do vidro pra fora, congelado em vida comum, esquecido de viver. Éramos todos ninados por aquela mulher. Bom poder sentir em cidade tão fria, um pouquinho de calor.

Meu coração nasce flor
Beirando e pingando na estrada
Hora chorando de amor
Hora divagando acordada.

santo anjo

Adoro o cheiro de carpete que minha nova casa tem.  Adoro as cores do adesivo coladas ao lado do elevador, bem perto da porta. Gosto de usar o teclado que aprendi a usar  desengonçadamente anos atrás, quando comecei, mostra que nada é à toa, tudo lhe dirige a algum lugar. Amo esse todo que está por vir e eu não conheço, mas sinto. O cheiro desse lugar é grande. Começo a sentir meus desdobrar de braços. Na minha frente há uma janela de cortinas piscadas, como olhos . Mas são brancas e grandes. Aos poucos deixo Luise se espalhar por esse lugar.  Ganhar dimensões da sala – leva um tempo para que percebamos o tamanho que realmente temos – por enquanto ainda estou tomando coragem de medí-la com os olhos. Olhá-la por inteiro é o primeiro ato de coragem. E de posse. Háuma ponte por cima de nós, cruzando as salas, por onde as idéias devem passar caminhando, feito gente que vai para a reunião. Sinto que as pessoas aguardam, esperam o que vem. E o mais interessante talvez seja isso: eu também estou aberta ao que vem. Também quero me testar, me conhecer. Sei que há um mundo imenso urso em mim querendo sair. Não fosse isso, não sentiria falta de ar. Essa falta de ar é na verdade um excesso: um exagero de idéias, energias e vontades, esperando um mínimo deslize da garganta para virar realidade. Por enquanto só brinco com as letras,, como dedos crianças em teclas de amarelinha. Passeio. Esperando a gigante que me tornarei. Até eu quero tanto conhecê-la. Vejo algumas pessoas se abraçando e a energia folgada do abraço. Vejo alguns risos correndo curupiras pelo silêncio pós-almoço, tão igual a todos os lugares do mundo. Lá fora a chuva deixa tudo assim: branco – tão bem lembrada a folha de papel. Branco novo esbranquiçando, inaugurando tempo novo, fazendo branca também a sala, a tela de papel e o fôlego da menina – nova. Sentia um cheiro de branco que era mais do que o cheiro da chuva. Feliz primeiro dia.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Prezados leitores,
Informamos que temporariamente a palavra desculpe - sem aspas para enfeitá-la, nem letra maiúscula para não virar um nome próprio - está extinta desse blog por abuso de sua companhia.

Atenciosamente,
A direção.

domingo, 27 de setembro de 2009

Você amadurece
quando aprende 
a dar colo
a si mesma.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

solto na língua

Hoje estou de suavidades. Quero que o dia seja doce e que o perfume seja quente como o sol das cinco. Hoje eu só quero palavras mansas, baixas, que descem como veludo enrolando pescoço e ouvidos. Hoje eu escuto aquela música leve, de batidinhas marcadas, aquele hit que  acompanha até na calçada, na padaria. Hoje estou a fim de uma bossa, mesmo que sozinha, de sentar para ver a poesia de janeiro, do Rio inteiro, do desenho gostoso e curvilíneo do Corcovado. Hoje eu topo uma tapioca , um empanado, topo qualquer coisa que tenha em cima um côco ralado. Hoje é dia de cores leves, do finalzinho da onda chegando na areia, de uma fala que nem precisa sair, de uma abraço para desaparecer nos braços. Hoje eu quero mais do violão: o tom, os dedos da mão. Hoje eu quero a corda vibrando na caixa maior do meu coração.  Eu quero ser o som, e de tão mergulhada, ser tocada em uma tarde calma… Quero tanto que esse dia não tenha pressa de passar, que não se agonie para começar nenhuma emoção em mim. Quero deixar deslizar, escorrer, até que sinta chegar um eclipse de dia assim. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O gosto que gente tem.

Gosto de gente falando em inglês. Os dois primeiros minutos em que eu me culpo por não dominar a língua são absolutamente superados pelo gosto que eles me provocam: o gosto de viagem. Ri sozinha porque naquele pequenino instante, em um cubículo de elevador, eles fizeram com que eu me sentisse livre no mundo. Atravessando um corredor de hotel em nova york ou em um museu famoso, apertando o livrinho sobre o peito, esperando para entrar. Naquele momento, aquelas pessoas me têm gosto de férias. Acontece parecido com meus amigos baianos: todos têm o bafo quente de sol. Quando eles chegam, me animo, porque sei que encontro um pacote de alegria, um suplemento de amor do qual sou feita. Me encontro com a melhor parte de mim em um simples sorriso encostado na porta, preso no rosto de um deles. Parece que a cidade embarcou, que minha felicidade passou para me buscar. As pessoas mudam de gosto quando se misturam com o cheiro quente de nossas memórias, os pedidos escondidos de nosso coração. E tudo passa a ser tão mais bonito e tão fácil se explica o rosto da moça, olhando pro alto, quando todo mundo está andando rápido, olhando pro chão.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Samba da bagunça - passagem do trem

Peço desculpa por esse jeito

tão desconexo , meu bem

pelo desajeito do meu cabelo

pelo embaralho de minhas pernas

e pela maluquice de

meus sentimentos

Sou assim um assustado só

Diante de um amor calmo

E uma onda farta de amor

Diante de um dia calmo

Sou assim, de derrubar a mesa

E de balançar o chão

Quando você só quer encostar a cabeça

Sou assim de pedir muito

De pedir os dedos, os ventos, os tempos, as mãos

Perdoa, amor, esse meu jeito tão desajeito

Meu amor destrambelhado

Descendo para os seus braços

Essa bagunca que faço

Com nosso suave compasso

Leve de tanto nós.

 

Se um dia a cabeça virar

Deixa então que eu arrumo

Que eu ponho tudo no prumo

Com meu punhado de palavras

Que eu dobro tudo de novo

No calor do meu abraço

Penduro nossos sentimentos

Penteio nossos medos com zelo

E amo como quem não fez nada

Como se nunca tivesse passado

Coisa assim tão assanhada.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Diverso

Esse jeito então tão masculino, de tornar o café com pão comum, o frio entrando na janela normal, a vontade de beijar e abraçar em absolutamente controlável. Esse jeito de estar mais atento aos clientes que vai receber daí a pouco, em vez daquele instante em que o cheiro do banho recém-tomado ainda está no carro. A corrida masculina que quase atropela nossa desavisada sensibilidade, que atravessa nosso romantismo infantil, sem muitas honras. Essa engraçada maneira de viver tão satisfeito, em saber que tem o que precisa ao lado, como quem anda olhando pra frente, com um pouco de pressa. Acha que está puxando sua carroça de essenciais, e leva um mundo de docilidades, sem perceber. Tão diferente de nossa insaciável mania de amar os detalhes, de respirar os encontros de intervalo, de festejar soluços de saudade. Ás vezes incomoda ser assim derramada, mas tenho aprendido a deixar viver. A ouvir os ritmos, respeitar as notas de cada um, e quem sabe um dia, parar de doer com as concretudes rotineiras. A controlar o violeta escorrendo da ponta dos olhos, para entender que aquela não é a hora de pinturas em vãos de dia. Pelo menos, para um de nós.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ceciliando


Coisa mais estranha é essa despedida pouca, se espalhando pelas beiradas, encharcando lentamente o esponjado dos sentimentos, até intumescer meu coração. Sinto que ela vem assim, sentida, atrasada, com seu relógio de horas de Machado de Assis. Sinto que vem no ritmo marchado de um trem. Mas não tem só a sua velocidade: traz o cheiro de café agarrado nas paredes de ferro, a melodia das pedras nos trilhos, dos trilhos nas pedras; a calma de quem lê um livro certo de que o tempo caminha naquele mesmo ritmo, de que é somente um tempo parado pra ler; e a beleza de quem olha para a vista, para além da janela, e se destina. E se conforta e se preenche. A alegria mansa de quem espera a estação chegar, com um punhado de malas na mão, confortado e distraído em seus próprios sonhos. Estou nessa poesia de borra de capuccino. No cheiro de mato forte que fica pra trás, beijado pelos olhos ao longo do caminho. Respiro, em uma cabine particular, a alegria de estar só naquele momento – e quem conhece, sabe o quanto é delicada e rara. É uma vitória comemorada na delicadeza de louças consigo mesma. Tudo é tão seu, nos estofados e ares, somente porque aquele momento é. Quem passa pelo corredor logo percebe seu destino assegurado, seu olhar adiante. A passagem é como a viagem: caricaturalmente mansa, tem um pouco de cheiro de avó, como se os cuidados fossem todos com você. Abro um pouco a janela para soltar os risos e os sonhos enquanto há uma dezenas de campos e pássaros para se inspirar. Pensei outro dia que o melhor lugar do mundo é sempre aquele onde os passarinhos têm mais motivos para cantar. É bom escolher a morada com os ouvidos. Deixo esse texto seguir, vagando no fluidez do trem, fazendo viagem de mim, sem pressa, sem muito porém. Passo a página ainda com pontas de dedos molhadas: há tempo para ler.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

santo anjo

Me falaram que em São Paulo eu ia endurecer o coração. Que iria ter que criar uma crosta, que era praticamente uma obrigação. Sorri há pouco. Cheguei à conclusão: não quero, não vou mudar. Porque esse é o melhor trunfo que a vida me deu: o coração aberto, a verdade derramando dos olhos. Meus sentimentos são braços, puxam as pessoas pra perto, minha paixão por construir laços ao invés de pistas de asfalto também já me levaram longe. Foi sendo o que sou que conquistei também o melhor das pessoas, que mostrei algo de diferente a elas, que me senti cumprindo meu caminho. Nasci de alma aberta, sem muita proteção. E ao invés de fragilidade, sinto ao contrário: há tanta força nisso. É com essa força que desarmo a proteção e a casca de tantas pessoas, que sofrem em ter que usá-las. Minha alma já é expandida, não volta ao tamanho de um embrião. Não dá para dobrá-la e guardá-la em um terno qualquer, uma capa de chuva. Não há medo em ser assim, aberto, verdadeiro, eu insisto, para que parem de divulgar essa informação. Há muita força em amar, há fortaleza em se fazer presente, em enxergar o outro, por trás das roupas de escritório, por trás dos contratos, emails, noites de solidão. E há uma proteção terna e silenciosa, como abraço de anjo. Posso enxergar o ritmo de quem é diferente, posso entender suas limitações, seus instintos, e caminhar mais devagar. Tocá-lo com leveza, mostrar-me menos. Sem, no entanto, querer sem quem ele é! Se tem uma coisa para se temer é isso: abrir mão de si, unir as arestas em uma caixa lacrada e escura. Haveremos de aprender a nos proteger, claro, mas não a se esconder, nem a abrir mão do que melhor temos. Serei inteira, serei presente, acessível, amável, curiosa e capaz de me doar. Serei quem sou, consciente disso, a cada manhã que acordar. Não fazemos redes contratuais nesse mundo, fazemos amigos, escola, história que emociona. Deixamos sinais, transformamos vidas, nascendo com cada um. Marcamos pelo que somos, não pelo que tivemos medo de ser. Sabe o que eu acho? São Paulo tava até precisando de um bocadinho de amor.

domingo, 30 de agosto de 2009

Despedida ( um pedaço tão pessoal)

Ainda se fosse a despedida de uma cidade, da minha cidade. Dos céus nos quais acordei, nos ombros que descansei, mãos e braços que me fizeram ter forças para me erguer sobre as pernas. Mas é mais. É uma despedida de mim. Deixo, em algum canto do playground do meu prédio, a menina acanhada que tanto teve medo, mas que sempre guardou um tanto de amor.Deixo a menina que bagunçava as idéias e as roupas, e procurava caminhos e ruas, tentando se encontrar. Deixo alguns dos amigos, mas levo comigo o sorriso e amor de cada um deles. Deixo as cores da cidade, mas levo todas que já estão pintadas em meu coração. Deixo no travesseiro alguns sonhos de ontem, algumas mal-dormidas noites, mas acordo, para viver os sonhos que escolhi. Deixo uma estrada bonita pra trás que, apesar dos capítulos de dor, foi escrita sob a luz do sol, e eu sou esse sol. Dou adeus a tudo que minhas paredes escutaram: os choros, os medos, as preces, as minhas confissões celebradas com tão verdadeiras alegrias. Deixo a história do que fui, e vou fazer a história nova. Uma parte de mim chora, ao se despedir da menina, outra parte agradece, pensando no que virá. De todos, de todos, não poderia deixar de fazer essa despedida de mim. Saio como a menina que fui, e vou como uma folha em branco, meu amado branco em alma virgem, me transformar na mulher que sou.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Som


Dizem os que escutam: a minha existência tem um som todo dela. A minha alma toca com as suas dezenas de pontas, tilinta em cada movimento. Ainda que não se possa vê-la, como ocupa espaços em barulhos. Como preenche os vazios em notas e pestanejar de cílios. Mesmo que não sejam em palavras, minha vida tem seu canto. Ecoa boa parte de mim com vontade em direção às janelas. Toco, feito corda de violino, na alma de outras pessoas, dedilho suavemente para que amoleçam os amores e não se cansem os sentidos. Arrumo cifras com o barulho da noite, do riso, com aquilo que os olhos não conseguem dizer. Minha alma junta tantos ruídos, sabe das músicas dos copos, do peito (se apaixona por esta, encosta o rosto). Sabe do som terno e quente que passeia entre os móveis, que desce desenrolando-se pelas escadas, que ocupa cozinha e quarto como uma boca larga. Vejo a música mansa rodear as pessoas em um abraço atoalhado, como a criança que se enrosca.
Essa é a mania da alma minha: ultrapassar suas linhas, se espalhar em quadrados e cantos, dobrar esquinas. Onde o amor se instala, tudo cala: mas é somente para sentir sua beleza. O silêncio do amor é dito. É tanto. E o meu compõe, ainda que dormindo, o tom de mais uma tarde.

Salto

Ser só é mais seguro. Não ter sonhos também é. Talvez seja melhor manter o pé embaixo do lençol em vez de lançá-lo ao chão frio. Ou nunca crescer, ignorar a teimosia dos ossos. Talvez seja melhor não mudar de cidade em tempo algum. Ou não aprender uma língua, pra não ter que lidar com gente estranha. Talvez ter sempre um braço em volta dos seus seja o mais seguro e morno. Levar sempre o celular para onde quer que você vá. É aconselhável também ir a festa antes das seis, voltar antes das duas. Talvez não amar seja muito mais seguro. Dá até para respirar aliviado. Não ter filhos, logo depois. Talvez tudo isso dê uma extrema sensação de conforto e paz, amparado pelas velhas paredes, mobília-família. A única coisa chata nisso tudo é que eu não conheço ninguém que acorde sonhando em ser seguro. Não se ensina a ter certezas. A graça da vida é justamente o que você faz na falta dela. Criamos nossos filhos para a felicidade, não para as respostas prontas. Para o salto, não para o chão.

De uma coisa fico certa: a vida é um vôo. E o princípio básico para se lançar ao ar é não se segurar em nada.

Faça comigo: abra os braços, encha o pulmão e experimente viver.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Antes de acertar a flecha,
são os olhos do arqueiro que são fincados.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Felicidade Facilidade Fez-se.

Eu e minha pequena imensa felicidade
Em sua meninice tamanha
Suas pernas de quilômetros
Tão cheias de joelhos
Seu riso se derramando pelos lados
açucarado
Viva a felicidade repentina!
A alegria menina moradora de peitos
Vestindo camisa branca
Viva a felicidade que balança
O tema solto, enfim
A alma cheia
Deixe que ela dance seu braço e outro
Deixe que corra a menina
Que devaneia.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Céu-Nascimento



Às vezes quando eu olho assim a terra arredondada, e aquele céu azul imenso se curvando sobre nós, eu sinto o mundo simplesmente grávido. E a nossa alma exultando, como se quisesse, de tanta imensidão, empurrar as finas paredes do céu até se romperem. Sinto, em uma verdade, como a se a gente ainda fosse nascer.


* Pouco depois que eu escrevi esse texto, um amigo meu bateu essa foto, do mesmo céu, e me perguntou: Lu, você vê uma pessoa levantando um bebê nessa nuvem?
Apelidamos a foto, e o momento, de céu-nascimento.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

ATOS

Mas no meu não, cada dia é uma nova cena, aliás, é uma nova peça em cartaz. Nunca sei que máscara vai acordar agarrada em minha pele, se há de arder em mim o choro ou o riso. Se há ódio, como hoje, estremecido, de tanto amor. Senhores, eu me penduro nas cortinas, eu rasgo cada pedaço de seu manto aveludado para fazer de cobertor! Seja como for, estou no palco. Estou cuspindo meus medos, enfrentando meus dragões. Não posso anunciar meu espetáculo de pé, porque ele é feito na agitação dos segundos, na agudez dessa hora, nada se pode prever. Eu não posso conter a mania de letras e a transformação em atos, sou somente tomada. Sou apenas o mesmo diretor que entra em cena, o mesmo ator que chora na platéia. Há um invento um tanto imenso para tudo isso. Querer dar forma a cada palmo de ferida, a cada gota de saliva sentida. Mas isto é a minha vida, que também se arruma para ser, e se perde e ganha em cima de qualquer tabuête. Se deseja explodir, que seja. É porque nunca coube em si.
E aquela alegria me vinha soluço. Sobressalto no meio do texto, assalto de minhas funções. Pequenas convulsões de riso, até estalar na face. Simplesmente vinha, toda menina, desejosa de sair, pular pro mundo. Difícil conter, explicar que naquele momento eu era um texto importante, sério. E lá vinha ela com estabanada felicidade em momentos comuns. Parecia um escorrega da alma: eu a empurrava pra dentro, e ela voltava gritando, cheia de impulso. Aprendi a gostar do seu jeito, a rir dessas loucuras, adorável companhia. A essa cócega repentina, em horas desavisadas, apelidei gentilmente de sintoma de você.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cumplicidade

Olhei. O cursor do teclado piscava e piscava, em um ritmo contínuo e marcado, contínuo e marcado, como um coração pulsando no meio de um peito branco e pálido do papel. Parecia a batida das palavras clamando por um pouco mais de vida para contar. O fôlego ofegante de um documento de texto. Eu o olhava. Ele a mim. Como que esperando, esperando a próxima letra. E de próximo eu nada sabia, nem dos capítulos, nem do desenrolar da história. Ambos pulsávamos. Ambos batíamos. Naquele ritmo ansioso e atento da espera. Ele fitava o meu branco. Eu olhava o vazio dele, sem medo. Nos perguntávamos a mesma coisa: se haveria palavra certa para desengasgar, se valeria querer adiantar alguma coisa. Nos aquietamos. Nos confortamos em um silêncio amparado, no aconchego que às vezes traz o recolhimento e a economia de palavras. A tela foi se escurecendo, no ritmo dela, como se quisesse também adormecer, em cumplicidade a mim e a um velho cursor. Sabíamos que por trás daquela noite digital, e debaixo dos nossos olhos, ainda havia o mesmo ritmo que persistia insistente. Mas agora eram apenas os segundos, cumprindo sua função de passar e virar a página, escrevendo a história enquanto a gente simplesmente dormia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A terra de São Jorge


Eu vi os olhos do menino cheios de cidade. Molhados de um verde manso e morno, que se deitava sobre as pedras, à borda da areia. Eu vi a luz nos olhos no menino. Que atravessava o céu e atravessaria os anos, bordando de prata uma orla sem fim, com um farol tão imponente quanto a noite. Vi a língua da cidade sobre as ruas. E como deixava tudo brilhando após sua passagem, até o coração do menino. Nesta cidade tudo tem beira, uma beira de cores perdidas entre tanta azulância e brandura, mas nada tem final. Pode-se caminhar pela margem, mas vê-se que a cidade é infinita, suas águas se estendem fartas, para que não haja dúvida de quanta riqueza foi dada a essa terra. Vi que o balanço do barco era manso, e com ele iam nossos sonhos adormecidos, hora tão meninos, hora tão futuros. Vi que o menino se enchia do amarelo dourado das comidas, do colorido de uma gente que borda alegria em cada renda, em cada prato, cada retrato. Vi que o sol não queria ir, decidido e imenso, e permanecia cravado na varanda das águas, fazendo tarde calma, fazendo ouro do mar. E o menino via o sol, e como ele, também não queria ir. Vi os caminhos de pedra, com um cheiro todo ele de história, que levantava-se rebelde quando chovia, entranhando-se nas pessoas distraídas de tanto presente. Vi a alegria do menino estar na alegria da gente. O gosto forte da cidade ardia sobre a boca, alagava os olhos, como um maço de pimenta mastigado por pura vontade, com toda força, até o fim. Era tarde, e como a noite caía, deixando somente a luz das casas formar um colar de contas sobre o mar, parei para ver. Deixei então escutar os risos, que desciam as escadas junto com o jazz, e os olhos, que se perdiam em tanta coisa para ver. Vi que, por um minuto, aqueles olhos eram também horizonte, se arrastando pelo chão, querendo levar em um só carinho pedra, frio, cores, meninas, cais. De tudo que vi, percebi que quanto mais crescia a cidade, em sua alma enlarguecida, maior se tornava o coração do menino. Este era, desde o dia que chegou, como o pórtico de ferro largo e envelhecido, aberto de tanto amor, atravessado pela gente e pela felicidade do vento.

A essa hora, para o menino, cidade era saudade.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Passagem


Quem manda ser assim, romântica demais. Agora fica aí, frente a minutos lentos, de barba branca amarelada, daqueles que sentam na porta de casa e pensam o mundo em cada mordida. Aqui fora, a vida quer dar suas reviravoltas, é normal. Algumas até fui eu que convidei, chamei pra entrar. Mas tem horas... tem horas que bate um medo, uma falta de coragem... No momento estou com choro. Com algo dessa finíssima classe acompanhando meus silêncios. Talvez nem seja meu o choro. Às vezes eu choro o choro do outro, pra que ele possa desaguar, convalescer. Talvez hoje eu chore o medo da minha mãe. A saudade que ela vai sentir quando tudo isso não for mais igual– e a minha saudade também. Talvez eu chore pela parte de mim que se permite duvidar, se perguntar se não é trabalho demais para si o que vem pela frente. Minha cabeça pende para um lado e para outro – procurando um colo, na certa. Meu suspiro percorre centenas de esquinas em uma velocidade instantânea. Mas volta vazio de ninguém. Minhas mãos estão abertas, pra ver se passam sonhos entre as frestas. Tudo em mim está assim: naquele tempo que é meio. Que precisa de mais coragem para ser o tempo da frente. Que precisa deixar de ser menino, e ter joelhos tortos, para ser o que vem, para descobrir quem vai ser. Procuro unir os cordões que faltam, consertar os laços e nós, porque não é bom partir deixando nada embaralhado. Afinal, vou precisar de toda força para mudar os trilhos. De uma coisa fico certa: só se vence um grande momento, seja bom ou ruim, cercado de imenso amor.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Espelho

Era isso que me incomodava em você. Eu achava que você era líquido. Que era sem horas, de patas fortes, instintos de crina. Seu pior defeito, seu maior encanto. Ser tão seu, sendo do mundo. Admirá-lo era tão possível ao mesmo tempo em que ia tornando impossível querer ter entre as mãos. Eu achava que era esse o seu problema, mas não. Só agora vi quem sou – e me alegro. Sou eu que sou livre, desculpe, sou eu que sou. Não percebi de quantas rendas é feito o meu ser, por onde o vento passa descarrilhado, e só assim posso encher o peito, recarregar. Quase esqueci do quanto preciso plainar, do quanto é aberta minha manhã, meus calos e coisas, minhas carruagens de estrada. Sou a passeio também. Meu riso é estradeiro! Sou feliz assim, de uma meninice só, convidativa. De uma falta de pertence indomada e bruta. E quando quis ficar assim, rente a pulso, foi que de fato me feri. Coloquei em risco minha natureza. Quase lhe culpei, mas foram meus grilhões que me fizeram mal, só eles. Foi essa a única liberdade que foi corrompida: a minha. Sei do que temos em comum: minhas prisões devem ser concebidas por vontade própria, o que torna-lhes também uma liberdade. Devem ser de tal forma macias e doces que eu nem sinta, que eu esteja ao mesmo tempo inteira e tão à vontade para estar onde quiser. (Como é necessária ser escorregadia para que se tenha fôlego!-conta a minha história). Veja que escolhendo estar ao seu lado, contra todas as forças, quase esqueci da minha passarela, de quanta vida escapole entre minhas falas. Do cheiro da poeira na estrada, dos olhares que acabam de aparecer na esquina. De todo o mistério, de todo o novo, que eu amo tanto e que sei amar sem prender. Desculpe, por um instante de minha pouca liberdade, quase machuquei você.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Duas considerações recentes

Sobre o amor

1. Mulheres não se apaixonam por homens. Mulheres se apaixonam por intenções.
Quanto aos homens, nem sabem quem são.

1.2 Se o amor fosse merecido, somente merecido, muita gente seria feliz de verdade ou ninguém amaria ninguém?

É só.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Duas

Estou aqui descansando do último assoeiro e pensando. Engraçado minhas contradições: minha densidade é leve, enquanto minha fraqueza é volumosa demais para se suportar. Quando existo com força, invadindo todas minhas pequenezas, de olhos tão abertos de caber o mundo, ninguém precisa conter, nem espremer os dedos para segurar. Flutuo, ainda que tomada de tanta energia. Mas se sou frágil, se esmorece o peso de mim como cachôa um balão, não são muitos. Quem pode verdadeiramente carregar? A minha leveza, de longitudinais escuros, precisa de calma. De olhos atentos, joelhos preparados. Precisa de alguém que saiba quando eu não sei viver direito. E entenda que isso não é um defeito. É preciso aprender a lidar com minha ausência por valiosos momentos. Não a ausência do que sou, mas da pessoa tanta que se conheceu. Da voz altiva, de muitos barulhos e presenças. Entender que naquele silêncio murmuroso também está tanto de mim. Que minha tristeza às vezes quer chorar, quer também ter o direito de ser, com pouca ou nenhuma razão. E essa tristeza não é mais do que o convite para a alegria.

Por trás da mulher há só uma menina. Assim como na menina mora a força estúpida de uma mulher. Quem saberá lidar com o nome das duas? Quem entenderá o pedido de um colo acalmado, quando se espera desfiles e guarda pronta? Quem compreenderá que não tendo, me tenho. Mas que tendo, tenho também o que temer – e por isso me assusto. Quem descobrirá que também perco um pouco de mim quando tenho você. Sob que olhos vou poder me reconstruir sem vergonha? Desfilo com tamanha alegria essa estranheza ímpar de mim. A borda fina circundando a flor, seu próprio limite e fragilidade. A grandeza que desfruta o sol, em imensidões transbordantes da própria língua. Com que maravilha rodeia minha existência, certa de sua dualidade, de seu equilíbrio harmônico ferido e nascido. Eu sei. Não é simples. Não é para qualquer braço, para qualquer papel ou ponta, para qualquer alma de boa vontade a arte de lidar com tudo isso. Assim como eu, há que se ter o dom que nunca foi pedido. E amar o encontro, acertar no cuspir das cores, desencantar os segredos da fala. E tudo assim: com muita naturalidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

De volta pra mim




Das muitas meninas que existem em mim, todas agora descansam, no fôlego largo da minha varanda branca. Me vejo assim, do jeito que mais gosto: descabeladamente feliz. Nem mesmo a cachoeira de pedras finas no fim da rua me assusta. Ao contrário: os estalos compõem o som que me adormece. O silêncio da tarde é meu. A conversa das crianças recheada de recreio, sozinhas de risos, é minha. O canto pós-chuva dos passarinhos pontuando as sensações, a cada suspiro, é meu também. Tudo, tudo que dança nessa tarde mansa – leitosa, entregue- é meu. Hoje faço questão de ser isso. E me alegro, com um alívio estendido, em não precisar ser mais.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sem explicação.


As histórias não me são perigosas quando me existem. Não, nenhuma delas. Nem quando o sol sangra lá fora. Nem quando a noite cai, me engolindo, e nos transpassando com dúvidas. Ferros, figas, dragões. As histórias me são perigosas quando me fogem. Quando escapam, somem de minhas mãos sem pontuar, me deixam em pé sobre livros vazios. Sem falas, sem choros. Eu sei viver cada linha de história, ainda bem, eu sei viver! Mas não sei o que faço com a retirada, com o vácuo que é tão presente em nós, que é quase como se fosse a própria história. Às vezes dói, às vezes ama, encorpada ausência. Esse intervalo, o lastro de um tempo não mais, me incomoda. Como se eu vivesse ao mesmo tempo duas, mal vividas: nem estou aqui, cuidando da fila da pão, nem estou lá, onde quero estar. As linhas se retiram, mas deixam os sentimentos. Esquecem os cheiros pendurados em nós. Deixam vestígios, roupas pelo chão, vez ou outra sem retrato. O que fazemos com tudo isso? Como montamos. É difícil entregar ao mundo, com a mesma liberdade com que aceitamos. É difícil ser tão líquida como a vida, deixando-se escorrer, deixando-se levar. Entendendo que tudo vem e passa e acontece, formando figura lá fora e no universo de mim. Que somos nós senão essa coisa também tão espalhada, feito o instante, feito o segundo. Somos a mesma coisa por onde as coisas correm. Com mais amor, com mais pessoalidade. Respiro, assim, como um suspiro ou um consolo, esperando do mesmo tempo que veio me trazer. Aguardo silêncios de bondes, de trens. Revivo uma despedida algumas vezes, até crio, só para ter um pouco mais. Tento descobrir como é que se faz, porque deve ser a parte de crescer. E acostumo a meus pés, de um jeito natural, a levantarem-se da última pegada, deixando cair flocos de terra, ainda tão sujos - eu diria contaminados de tanto ontem, para seguir sem paradeiro, certos apenas, desse movimento.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Poema caipira

(inspirado em uma chefe bem cosmopolita)


E quanto mais

a mulher me empurra

Mais eu enteso

Feito burro n´água

Mais o ombro prende

Mais o corpo atrasa

Porque o que eu quero

É leseira

Eu nem sei que dia é hoje

Se é sábado, domingo-feira

Eu quero é abrir meu bico

Esticar minhas Penas

Faz um sol danado lá fora

E você cheia de caramiola

Me deixe ouvir o tilintar da vida

O zinoim do tempo

Meu ritmo hoje é marcado

É um jingado quase lento

Eu quero é um aconchego de lado

Demorar na risada gostosa

Molhar meu pé, encharcar palavra

De qualquer coisa melada e enjoada

E você com essa cara

Sem entender nada

Veja, já é sexta-feira

Me deixe esticar meu cangaço

E se tiver um motivo pra rir

Descanse esse muro

Estenda esse braço

E me encontre, mulher

Que não há motivo

Pra tanto

estardalhaço.

Mesmo assim eu vou vivendo
de um jeito bom e atrapalhado
sabendo o tanto que a gente vive
e amando o tanto que é inventado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Preciso dividir-me


E eu, como sempre, querendo parar o mundo para contar das duas taças sobre a mesa, e da maneira como o mundo de repente me pareceu escorregadio, como se toda frase fizesse cócegas e descesse deslizando pela minha pele até se enroscar, atrapalhando meus pés. Era só um dia normal, com as campanhas sobre a mesa, mas eu queria mostrar da largura do meu sorriso, do momento em que eu consegui, bravamente, fazer até o relógio de Londres parar – sorrateira na madrugada, deve dar nos jornais. Mostrar que eu sei, eu possuo a habilidade de fazer isso: mandar nos ponteiros, paralisar rotinas se alternando em carrossel, uma depois da outra. Fora isso, ainda tinha o perfume, como eu iria olhar matérias tão estampadas nas caras, tão cotidianas, bom dias tão envelhecidos, se o meu dia não tinha nada de comum? Sinto pena, tão doce alegria que nem merece morrer em mim, sem poder colocar as pernas para fora de minha boca, convidar mais umas pessoas para um papo de cordas, tomar um ar pelo buraco onde eu respiro. Alegria também quer escapar, como a gente quer, em uma segunda à noite, sem lugar aberto pra ir, sem hora permitida, com a chuva ainda assim acontecendo, e a gente inventando. Inventando sem fim. Aquela hora atípica, aquele dia intervalo, aquela liberdade quase mágica de quem sabe que a vida espera, a vida sabe que vai ser criada. E se arruma pra ser.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Para Carol levar na viagem




Sorridente movimento. Sente. Tanta alma escapando entre os dentes. Tantos meninos em um mesmo olhar. Tantas vidas em pontas de dedos, que quase grita a pele. Há tapetes de nuvens lá em baixo, mas aqui dentro não há gravidade. Só leveza, é só o que tem. Soltamos os pés devagarinho, mas algo em nós já caminha longe, pulou com o vento do trem. Apertamos papéis para que o tempo passe, vai de um lado pra outro uma conversa de caixinha, em breve seremos nós. Lá fora neva, carimba, canta, faz frio, deixa escorrer sonhos mornos pela janela. Mas não temos coragem de colocar tanta poesia por trás da cortina, espiamos tudo, metade de nós do lado de fora. E se embaça, é o respirar da vida, suspira ela. Olho para a porta: uma mala é sempre uma. É sempre pouca, porque levamos o que somos e voltamos infinitos. Nunca nos cabem as vontades dobradas em uma mala só, etiquetada. E nunca comporta as experiências, as risadas nas escadas, os silêncios entre os braços, ou pagaríamos excesso de peso. A graça é ser viajante, é ser tudo tão livre, tão presente e despedido, como passam os postes acobreados, as crianças vermelhas, os olhares, os artistas. Como rodam as músicas, os abraços. Tudo passando em volta de nós, e a gente como que girando, querendo segurar o mundo por mais instantes. (E é bom saber: uma parte dele também fica para sempre, viajando em nosso peito). Há tanto para se ver - diz para si mesmo. Voe. Eu finjo de conta que não vi. Pode fingir ser o que não é, pode viver outras, pode amar sem nem saber que ama. Sem contar as medidas, sem. Estire-se sobre uma grama. Volte cheia. Volte ainda rindo, sem saber muito o caminho de casa. Volte se perguntando de tudo isso, entretanto, será, porque quem descobre fica assim, inquieto. Quem sabe, não te encontro ainda por lá, decorando uns postais ou pintada nos selos. Quem sabe não te encontro lá, tão misturada ao velho som de um violino. Quem sabe não há cores todas trançadas na volta do seu cabelo. Porque se Paris chega a você, quanto de você derrama em Paris. Nunca mais será a mesma, não sairá intacta desse encontro, ingênua cidade. Vive. Escuta esse som desnudo: vive. Porque isso é o melhor que posso te desejar, e por sorte, é tão seu.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Para o meu gordOsho pai

Tão gratuitamente me é dado tanto
Que só em pensar
Tudo em mim é leve, é manso
Em ler suas letras posso te ouvir
Com o mesmo tom de voz e de amor,
Como se falasse na rede, há anos atrás
Mas acontece – e encho os olhos
Que hoje ainda te amo mais
Por vezes me perco na idade
Somente olho
E me parece um menino
Mas teu amor é antigo
E guarda a sabedoria
de um ancião
Como me preencho em tuas mãos
Que saudade sinto em tanto silêncio
Sonho, como sonho
em um dia ver seus cabelos se tornarem claros
Como clareia a manhã e aura
Os campos de trigo
Confessando um perfume tão doce
Quanto a poesia de sua calma
E ver que em tão lentos passos
E em tão brancas mãos
Mora ainda o mesmíssimo sorriso
E aquele que amei,
Que sempre amei,
Teu coração.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eu penso ao invés de


E sentir essa coisa tão simples e alegrina ao invés de. Tantos medos, tanto tempo engavetado. E olhar o sol ao invés de contar do escuro que tenho visto entre as pálpebras. E esquecer da dor, ao invés de tratá-la bem, com tantos cuidados, com tantos olhares. Dor é como gente: quando bem tratada não quer ir embora. E simplesmente abraçar porções de amigos, cantar qualquer beleza da vida, a mais simples, a mais fútil, ao invés de encontrar um motivo para franzir a boca. E arranjar um espaço para esperança, afastando as mobílias do coração, ao invés de viver sem a companhia dela nem de ninguém. Quem sabe com tantos invés, a gente consiga o revés: consiga virar o peito do avesso, de forma que alma fique toda pra fora, estufada e exposta, e vendo a beleza do mundo, se renda e viva com uma vontade imensa. Quem sabe assim, tão protuberados de nós, a gente chegue mais perto de conhecer a grandeza que abrigamos aqui dentro, mas que deseja ser, desde que nasceu, simplesmente livre.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

FOGO NO AÇO
A MOÇA NO VENTO
SE FAÇO QUE PASSO
SOU LENTO, SOU TEMPO
SE OUÇO O CANSAÇO
SOU TEMPO, SOU LENTO
MAS SE DE REPENTE
DESCOMPASSO
SOU AÇO
SOU FOGO NA
CERNE DO VENTO
AÇOITE DE LUZ
SOU ILHAÇO
SOOEI, SOEIRA
SOOU, SÓ ARDE
FLAMEJA NA TARDE
SOU CORDA DE CHAMA
QUE QUEIMA
QUE ARDE
O VENTO DA TARDE
MAS QUEIMA,
QUEIMA.